
Desta vez, foi aconselhada por seu médico a usar a caneta emagrecedora. Hesitou por receio do envelhecimento rápido e da flacidez excessiva causada por medicamentos como o Mounjaro (tizerpatida) e o Wegovy (semaglutida). Mas aceitou o tratamento, sempre sob acompanhamento endocrinológico. Após a perda de peso e melhoria dos exames laboratoriais, investiu numa abdominoplastia, numa mastopexia com prótese, em um argon plasma e um remodelamento costa. O custo, R$ 55 mil.
A trajetória da enfermeira ilustra um fenômeno: a grande procura por procedimentos de cirurgia plástica entre pessoas que passaram por emagrecimentos expressivos após o uso das chamadas canetas emagrecedoras. A perda significativa de volume corporal pode deixar excesso de pele, causar flacidez, perda de massa muscular e modificar o contorno de diferentes regiões do corpo.
No Brasil ainda não há estatísticas, mas dados de 2024 da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos mostram que 39% dos usuários dessas canetas podem fazer algum procedimento cirúrgico e 41% pensam em recorrer a tratamentos estéticos não cirúrgicos para lidar com as consequências do pós-emagrecimento.

Fernando Lamana, cirurgião plástico especializado em cirurgia de mama e contorno corporal em Belo Horizonte, observa o movimento em seu consultório. Nos últimos dois anos, períodos de circulação da tirzepatida no país, a demanda por cirurgias para tratar flacidez extrema, segundo ele, cresceu. Antes, eram sobretudo pacientes bariátricos – cerca de 10% do total atendido – que chegavam com esse tipo de queixa.
Hoje, segundo o cirurgião, mais de 90% das pacientes que passam por seu consultório já usaram ou estão em uso de alguma caneta emagrecedora, e a proporção de quem busca tratar flacidez, e não mais perder peso, se inverteu: o que antes representava 30% da demanda agora responde por 70%.

Cuidados
De acordo com o cirurgião plástico André Miolo, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a decisão de operar após grandes perdas ponderais deve ser guiada pela estabilidade do paciente. “A cirurgia plástica não deve competir com o emagrecimento, mas entrar quando o processo estiver amadurecido”, pontua. Ele avalia parâmetros como massa muscular, nutrição e comorbidades para definir o momento ideal.
Além da questão estética, o médico destaca o caráter funcional do procedimento: dobras cutâneas causam assaduras, dermatites e limitação física, impactando diretamente a qualidade de vida. Contudo, emagrecer não garante prontidão cirúrgica. É indispensável uma avaliação laboratorial minuciosa e a checagem das condições clínicas gerais do paciente.
Nesse contexto, o uso de medicamentos para emagrecimento exige rigor. O cirurgião alerta que agonistas de GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico, sendo vital que cirurgião e anestesiologista (conforme a American Society of Anesthesiologists) saibam a dose exata do uso e a última aplicação. “As condutas perioperatórias são individualizadas. O paciente jamais deve suspender ou manter a medicação por conta própria”, adverte.

Por fim, a principal orientação é a prevenção: optar por um cirurgião credenciado pela SBCP e realizar o procedimento em estrutura hospitalar adequada. “A cirurgia plástica não é uma correção para o emagrecimento, mas uma possível complementação dele”, conclui.
Cada um, cada qual
Miolo cita que entre as cirurgias mais frequentemente indicadas pós-uso de canetas emagrecedoras estão a abdominoplastia, muitas vezes associada ao tratamento de todo o tronco; a mastopexia, com ou sem prótese dependendo de cada caso; a braquioplastia, para o excesso de pele nos braços; o lifting de coxas; e, em perdas maiores, os chamados body liftings, que tratam de maneira mais ampla o contorno corporal. Em alguns pacientes também existe indicação de tratamento da face e do pescoço.
Hoje, o perfil dos procedimentos varia por faixa etária. Mulheres a partir dos 40 anos concentram queixas de flacidez facial, o que tem antecipado a indicação de lifting: uma cirurgia que, até poucos anos atrás, era reservada a pacientes de 50 e 60 anos. A técnica também mudou – o chamado Deep Plane, que reposiciona a musculatura da face em vez de apenas dar pontos de sustentação, tem produzido resultados descritos como mais naturais e permitido operar pacientes mais jovens. Pálpebras também afrouxam com o emagrecimento acelerado, o que tem elevado a procura pela blefaroplastia.
Mulheres na faixa dos 30 aos 40 anos buscam primeiro mama e abdômen; entre 20 e 30 anos, a cirurgia de mama costuma vir antes da abdominoplastia. Mastopexias hoje são feitas majoritariamente com prótese posicionada atrás do músculo – uma inversão em relação à técnica predominante há dez anos, quando a prótese ficava na frente –, o que Fernando Lamana atribui à sustentação insuficiente que a pele afinada pelo uso das canetas emagrecedoras oferece ao implante.
O que dizem os números
Segundo o mais recente relatório global da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), o Brasil realizou mais de 2,35 milhões de procedimentos cirúrgicos em 2024 – 13,5% do total mundial –, consolidando a liderança do país no ranking de cirurgias plásticas. O mercado de estética como um todo – incluindo procedimentos não cirúrgicos, além de cosméticos, entre outros – deve movimentar R$ 28 bilhões neste ano no país e alcançar R$ 48 bilhões até 2030, segundo projeções do mercado, com cerca de 800 mil empregos diretos estimados para a década.
Em paralelo, o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras – hoje concentrado em semaglutida e tirzepatida – deve saltar de R$ 11 bilhões, em 2025, para R$ 20 bilhões neste ano, segundo o banco de investimento UBS BB. Já o Itaú BBA projeta pelo menos R$ 50 bilhões até 2030. A queda da patente da semaglutida, em março deste ano, deve baratear o tratamento e ampliar ainda mais essa base, ainda que os efeitos não sejam imediatos: laboratórios interessados em produzir versões do medicamento dependem de registro na Anvisa, que analisa hoje 14 pedidos. Para cirurgiões como Lamana, a tendência é que a fila por procedimentos de contorno corporal se alimente por mais tempo.
A cobertura desses procedimentos por planos de saúde ainda é incerta. A Resolução CFM nº 2.429/2025, que atualizou e unificou as normas anteriores sobre o tratamento cirúrgico da obesidade e de doenças metabólicas, reconhece a obesidade grave como fator que desencadeia outras doenças, e o Superior Tribunal de Justiça, no Tema 1069, fixou entendimento de que cirurgias plásticas pós-bariátricas – abdominoplastia, mastopexia, cruroplastia, braquioplastia – têm caráter funcional e reparador, não meramente estético, quando há comprometimento documentado, como infecções de repetição ou limitação de movimento. A extensão desse entendimento a pacientes que emagreceram apenas com medicamentos, porém, não é automática.
Não há, segundo Lamana, uma recomendação formal das sociedades científicas sobre o momento ideal para operar. Na prática empírica dele, pacientes chegam a uma perda de peso mais definitiva após seis meses de uso das canetas emagrecedoras, embora a redução continue, em menor ritmo, até completar um ano. Ele costuma indicar cirurgia a partir desse marco, com suspensão do medicamento dez dias antes do procedimento e retomada cerca de duas semanas depois – um intervalo que, segundo sua observação, reduz complicações como infecção, seroma e abertura de pontos, efeito que ele atribui à melhora da resposta inflamatória crônica do tecido adiposo proporcionada pelo medicamento.
Tratamentos sem cirurgia
A intervenção cirúrgica não é a única saída para este paciente. Há tratamentos estéticos pós-emagrecimento que também têm alta demanda. Ou seja, há opções e depende de cada caso. O médico dermatologista Lucas Miranda, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e fundador da Clínica Lucas Miranda, em Belo Horizonte, assegura que as intervenções não cirúrgicas podem ajudar bastante.

A radiofrequência, os lasers fracionados ou o APhen Peel®, para rugas já existentes e que se aprofundaram com a perda de peso, são algumas das opções de tratamento. No entanto, o médico dermatologista avisa que, muitas vezes, o melhor resultado não vem de uma tecnologia isolada, mas da combinação de tratamentos que atuam em necessidades diferentes. “Podemos trabalhar sustentação, estímulo de colágeno, textura e rugas dentro de um mesmo planejamento e, quando existe indicação, associar também bioestimuladores de colágeno”, define.
O especialista lembra, no entanto, que existe um limite que deve ser respeitado. Quando sobra muita pele depois de uma grande perda de peso, alerta, nenhum aparelho vai reproduzir o resultado de uma cirurgia. “Nos casos de flacidez leve a moderada, ou quando o paciente não deseja operar, conseguimos montar protocolos interessantes para melhorar a firmeza, a qualidade da pele e o contorno”, diz.
“Eu não gosto de pensar simplesmente em tratar a flacidez pós-emagrecimento. Eu avalio quanto peso aquele paciente perdeu, em quanto tempo, como está a pele, onde houve maior perda de sustentação e quais sinais de envelhecimento ficaram mais aparentes. A partir daí, escolhemos o que realmente faz sentido para aquele rosto ou para aquele corpo. O tratamento precisa acompanhar o novo momento da pessoa, sem exageros e, principalmente, sem prometer aquilo que nenhuma tecnologia consegue entregar”, finaliza Lucas Miranda.
“Não existe o milagre da perfeição”
O médico cirurgião plástico Alexandre Alcides Mattos de Meira, coordenador da Cirurgia Plástica da Rede Mater Dei de Saúde e regente do Serviço de Residência do Hospital Universitário Ciências Médicas de Minas Gerais (HUCM-MG), confirma que o uso das canetas emagrecedoras disparou. Porém, segundo ele, o consumo ocorre tanto por extrema necessidade entre pacientes obesos e diabéticos quanto para uso, segundo ele, recreativo, “por pessoas sem indicação absoluta que buscam o refinamento do contorno corporal. Observo um aumento expressivo, principalmente na população de maior poder aquisitivo, devido ao alto custo dos medicamentos. O uso é realmente amplo e representa um percentual considerável.”

“Especialmente em relação à anestesia. É preciso comunicar ao médico e suspender a medicação de 7 a 14 dias antes do procedimento. A utilização inadvertida na véspera de uma intervenção pode aumentar o risco anestésico e gerar complicações cirúrgicas”, alerta. Meira afirma que, com a orientação correta e boa indicação, é possível obter ganhos na qualidade de vida e nos resultados estéticos.
Expectativas irreais
O médico aponta outro problema: a expectativa irreal sobre os resultados. “A influência impactante e irresponsável das redes sociais cria ilusões sobre as cirurgias e os medicamentos. A pessoa posta fotos com os melhores ângulos, luzes e tratamentos digitais, gerando a falsa ideia de perfeição. Isso não existe. O alinhamento no pré-operatório é dificílimo e indispensável. Se o resultado não estiver alinhado ao que o paciente espera, ele continuará infeliz, pois buscava algo inatingível.”
Sobre as canetas, o cirurgião enfatiza a necessidade de reeducação alimentar e exercícios físicos para preservar a massa magra. Ele lembra ainda que, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), toda cirurgia plástica é estética e reparadora, e o ideal é que o paciente esteja no peso adequado. Pacientes com IMC acima de 30 apresentam risco significativamente maior, o que exige avaliação individualizada.
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o primeiro genérico da semaglutida no Brasil, desenvolvido pela farmacêutica EMS sob o nome Ozivy; a substância, indicada para diabetes tipo 2 e perda de peso, deverá ser lançada com custo no mínimo 35% inferior ao do medicamento de referência. Avaliando esse cenário, o cirurgião plástico Alexandre Meira destaca que a redução de custos e o avanço de pesquisas — incluindo futuras versões orais — expandirão o acesso da população aos benefícios terapêuticos desses fármacos, cujos ganhos clínicos superam os riscos quando há correta indicação. O especialista alerta, contudo, contra o uso abusivo e a automedicação comuns no país, enfatizando que a prescrição exige avaliação rigorosa, exames específicos e uma abordagem multidisciplinar integrada entre endocrinologista, cirurgião plástico, nutrólogo e suporte psicológico ou psiquiátrico.