Cada km² desmatado na Amazônia gera 27 novos casos de malária

O mosquito transmissor da doença se adapta às áreas degradadas

por Encontro Digital 29/05/2018 10:45

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(foto: Pixabay)
Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Saúde Pública da USP descobriu que cada km² de floresta tropical nativa derrubado na Amazônia está associado a 27 novos casos de malária por ano – o período avaliado foi entre 2009 e 2015. A comparação da incidência da doença com dados sobre áreas impactadas pelo homem também mostra que a ocorrência é maior quando há abundância de pequenas áreas devastadas, detectadas por imagens de satélite. O risco é aumentado pela capacidade do mosquito vetor da malária se adaptar às áreas danificadas, aliada à maior presença tanto de pessoas suscetíveis como infectadas pelo parasita que causa a doença. A essa situação podem se somar as condições precárias de vida da população, baixo nível educacional, desconhecimento sobre a transmissão da infecção e difícil acesso aos serviços de saúde.

"A pesquisa buscou demonstrar a correlação entre incidência de malária e o padrão de fragmentação da mata nativa causado pela criação de assentamentos rurais e extração de produtos da floresta. Para isso, foi feito um cruzamento dos dados de casos de malária notificados de 2009 a 2015 nos nove estados da Amazônia [Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima], fornecidos pelo Ministério da Saúde, com os dados de desmatamento ao longo dos anos, disponibilizados na plataforma digital do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia", explica a professora Maria Anice Mureb Sallum, que supervisionou o estudo, que foi publicado na revista científica Nature no dia 4 de maio.

Os pesquisadores da USP demonstraram que há uma correlação positiva entre o tamanho da área desmatada e o aumento de casos de malária. "O impacto é maior quando o desmatamento acontece em extensões menores que cinco km², pois, em vários casos, a derrubada é feita por pessoas ligadas à precarização e alta rotatividade da mão de obra, em total desacordo com a legislação. A formação dos assentamentos movimenta pessoas que muitas vezes residiram em áreas com transmissão de malária e podem abrigar o parasita sem ter a doença, atuando na sua dispersão. Para cada km² de desmatamento, acontecem 27 novos casos de malária", diz a pesquisadora.

Ainda segundo Maria Anice Sallum, quando a floresta é contínua e íntegra, sem áreas de desmatamento, se existe o mosquito anofelino, transmissor do protozoário causador da doença (Plasmodium), ele é raro e vive somente onde as condições ambientais são adequadas. "Mas, com o desmatamento, ocorrem mudanças ecológicas importantes que favorecem o mosquito vetor. Por ser uma espécie oportunista e generalista, ela se adapta com facilidade ao ambiente modificado, e se dispersa rapidamente".

Habitações inadequadas

Como o mosquito tem afinidade por áreas próximas às matas, onde ficam os domicílios das comunidades rurais, ele passa a viver próximo do ambiente humano, onde há muita fonte de sangue para o inseto. "Além de picar as pessoas, os mosquitos também se alimentam do sangue de animais domésticos como cães, gatos, cabras, porcos, galinhas, papagaios e macacos. As habitações em geral são inadequadas, feitas com pedaços de madeira, folhas secas de palmeiras ou até uma simples lona apoiada em troncos de árvores derrubadas. Os abrigos dos animais são tão precários que não impedem o contato dos mosquitos com fontes de sangue, fato que favorece o aumento da população do vetor e a exposição do homem às picadas", alerta a professora da USP.

Conforme Maria Anice, o modelo de ocupação da Amazônia nem sempre permite a melhoria da qualidade de vida das comunidades rurais, entretanto, facilita a maior transmissão e distribuição da malária. "Normalmente, são populações muito pobres, com nível educacional baixo, que vivem em processo contínuo de migração, devido à malária, condições precárias de vida e falta de recursos financeiros para se estabelecerem. A migração gera novos assentamentos em áreas de floresta, causando mais alterações nos ambientes naturais e a expansão da malária".

Com as migrações constantes, as pessoas infectadas levam o parasita, muitas vezes sem ter sintomas de malária, para novas áreas desmatadas, expandindo a área de transmissão da doença e dificultando o controle. "Quando várias pessoas passam a conviver em uma mesma região, com a presença do mosquito vetor, em geral a maioria é suscetível. Portanto, ao mesmo tempo em que o agente é introduzido no novo ambiente, ocorrem surtos da doença", afirma a pesquisadora.

Para Maria Anice Sallum, os programas de controle da doença deveriam levar em conta fatores da ecologia humana que atuam na dinâmica de transmissão, como atividades de trabalho, condições de moradia e migração. "Por exemplo, é necessário melhorar a condição de vida e as moradias, para diminuir o contato do homem com o mosquito. Também é preciso ampliar o acesso à educação de qualidade e voltada para as necessidades locais, intensificar programas de controle, facilitar o acesso aos testes diagnósticos e ao tratamento e fortalecer pesquisas sobre a ecologia da transmissão, que poderiam gerar novos conhecimentos e auxiliar no delineamento de programas para o controle de vetores".

(com Jornal da USP)

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