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Estado de Minas SAúDE

Agrotóxicos podem afetar nosso sistema endócrino

Certas substâncias atrapalham o funcionamento dos hormônios


postado em 20/07/2018 12:44 / atualizado em 20/07/2018 13:17

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
Em meio à polêmica discussão sobre o Projeto de Lei 6299, de 2002, do ex-senador Blairo Maggi (PP-MT), que está sendo analisado no Congresso Nacional e que pode "amolecer" as regras de uso e venda de agrotóxicos no Brasil, entidades médicas manifestam preocupação com o teor da proposta, que reprsenta risco à saúde da população.

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), existem cerca de 600 estudos científicos que demonstram o potencial dos agrotóxicos de interferir no sistema endócrino, principalmente no desenvolvimento do sistema reprodutivo, na fase intrauterina.

Antes da votação da proposta numa comissão da Câmara dos Deputados, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Instituto Nacional de Câncer José Alencar (Inca) já haviam se posicionado: "Alertamos a sociedade brasileira para os efeitos potencialmente catastróficos da aprovação desse projeto de lei para a saúde pública", afirma a SPBC por meio de nota. "Tal modificação colocará em risco as populações, sejam elas de trabalhadores da agricultura, residentes em áreas rurais ou consumidores de água ou alimentos contaminados, pois acarretará na possível liberação de agrotóxicos responsáveis por causar doenças crônicas extremamente graves e que revelem características mutagênicas e carcinogênicas", adverte o Inca, também em comunicado público.

De forma geral, as pesquisas associam a toxicidade dos pesticidas a mutações que podem levar ao desenvolvimento de câncer, doenças degenerativas e distúrbios do neurodesenvolvimento. Na endocrinologia, especificamente, a preocupação é com uma função que muitos desses produtos têm: desregulação do sistema endócrino. Neste caso, determinadas substâncias químicas às quais as pessoas são expostas ao longo da vida agem no organismo enganando o sistema endócrino. Estas toxinas mimetizam ou anulam a função de importantes hormônios, ligando-se aos receptores responsáveis por detectá-los e reagir à presença deles.

Plástico com BPA, alguns medicamentos, cosméticos e artigos de higiene pessoal, revestimentos de latas, determinados tipos de papéis e retardadores de chama são alguns dos produtos que levam substâncias consideradas desreguladoras endócrinas. Ao menos nove classes de químicos usados no controle de pestes agrícolas também fazem parte desse grupo. Fetos, crianças e adolescentes são os mais vulneráveis aos efeitos adversos.

"Nesses casos, o raciocínio da toxicidade não tem aplicação. Doses mínimas dos desreguladores têm efeito máximo nos sistemas endócrinos", observa Elaine Frade, presidente da Comissão de Desreguladores Endócrinos da Sbem, em entrevista ao jornal Correio Braziliense. Ou seja, ainda que a quantidade do ativo seja tachada de "segura", o organismo não interpretará da mesma forma, e as mais baixas concentrações de agrotóxicos com essa função têm potencial de mimetizar a ação dos hormônios.

Como seres humanos estão expostos a uma variedade muito grande de substâncias no meio em que vive, é difícil realizar estudos controlados para detectar a influência direta de um único composto na saúde. Contudo, pesquisas com animais criados em laboratório fazem essa associação. "Eles mostram conexão dos desreguladores com câncer, obesidade, doenças de tireoide e alterações no sistema reprodutivo, entre outros", diz a médica.

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