Conversamos com o velejador e cineasta David Schurman

Ele falou sobre o filme Pequeno Segredo, novos projetos e as expedições mundo a fora

por Rafael Campos 18/09/2017 14:13

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
David é o filho do meio da Família Schurmann, que ficou conhecida por desbravar os mares ao redor do mundo. Já na primeira das três expedições, David, aos 13 anos, encontrou na câmera de filmagem seu porto seguro. Convenceu seus pais a adquirem o equipamento no Panamá, onde era mais barato. Foi aí que a família começaria a se transformar em empresa, a Schurmann Filmes. Ainda jovem, registrava as viagens que deram forma a documentários como: 20 Anos no Mar (2004) e O Mundo em Duas Voltas (2007). Além de produtora de filmes, a família catarinense transformou-se em marca. E David tornou-se o CEO. “É uma empresa diferente de qualquer outra, porque lidamos com sentimento”, diz ele. Em 2016, sua carreira deu um salto. Lançou Pequeno Segredo, seu primeiro longa-metragem, produzido em cooperação com a Nova Zelândia. O filme traz a história de Kat, nascida também no país pertencente à Oceania e adotada pela família. A garota morreu em 2006 devido a complicações decorrentes do vírus HIV. Mas o longa acabou envolvido em uma polêmica no fim de 2016, ao ser indicado por uma comissão do Ministério da Cultura para concorrer à vaga no Oscar. Outra produção brasileira, Aquarius, de Kléber Mendonça, também estava cotada. Para muitos, a escolha da produção de David foi motivada por questão política, já que atores de Aquarius fizeram um protesto contra o governo Temer em Cannes. “Pelo menos hoje todos conhecem David Schurmann”, avalia. De passagem por BH, onde participou de um evento sobre a indústria audiovisual, David conversou com Encontro e falou sobre cinema, a relação com a família e a produção de Pequeno Segredo.

Quem é: David Schurmann, 43 anos
Origem: Florianópolis (SC)
Formação: Cinema e televisão pela AUT Auckland University Of Technology e South Seas Film & Television School, ambas na Nova Zelândia
Carreira: Dirigiu Magalhães Global Adventure (1997 a 2000); 20 Anos no Mar (2004); O Mundo em Duas Voltas (2007); BRA 999 –  Amanhã É Só Imaginação (2009); Desaparecidos (2011); Pequeno Segredo (2016); e Expedição Oriente (2016)

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Meus pais começaram a sonhar em dar a volta ao mundo no ano em que eu nasci" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
ENCONTRO – Você tinha apenas 10 anos quando velejou pela primeira vez ao redor do mundo com a família. Qual a lembrança mais marcante que você tem dessa época?
DAVID SCHURMANN – O que mais me marcou é o fato de conseguir me lembrar do que aconteceu todos os dias, desde o início da expedição. Não existe rotina dentro de um barco. Quando se vive numa casa, há uma rotina que o cérebro tende a apagar. Mas num barco é outra história. Um simples acordar é diferente. Foi um privilégio. E obviamente eu vivi uma coisa que nem todo mundo vive. Nessa idade muitos estão indo para escola, por exemplo.

E não foi difícil para você? Não sentiu falta dos amigos ou da terra firme?
Meus pais começaram a sonhar dar a volta ao mundo no ano em que eu nasci. Eles fizeram uma lavagem cerebral em mim desde pequeno (risos).  Já estávamos esperando esse tipo de vida. Eu também tinha o meu irmão mais novo, com dois anos de diferença. Ele era o meu melhor amigo. Eu não era solitário nessa idade. E os meus pais nos ensinaram a fazer amizades muito rápido. Em cada porto que chegávamos, fazíamos amigos. Sinto hoje um efeito colateral disso tudo, que é o desapego. Tenho uma facilidade de me despedir sabendo que vou rever a pessoa no futuro. Algumas pessoas podem falar que isso é frieza, mas não. Quer dizer que você aprende a se despedir. Isso dá uma liberdade tremenda.

Três anos depois, vocês embarcaram para a segunda expedição, incluindo a pequena Kat...

E já foi bem diferente. Meus pais nunca nos arrastavam para o barco. Sempre nos motivaram a fazer parte de algo. Então, quando voltei para a segunda expedição, já sabia que fazia parte de algo, agora, como adulto. Meu voto valia muito mais do que aos 10 anos. E foi bacana ter a Kat, uma criança com um olhar que nunca deixava as coisas ficarem sérias demais. Então, encarei como um supertrabalho e muito gostoso, pois era o que eu já gostava de fazer. Ou seja, filmar, viajar e contar histórias.

E foi a viagem que gerou o documentário O Mundo em Duas Voltas...
Sim. Estava muito mais preocupado em transmitir o que estávamos vivendo. Filmava já pensando que o público poderia assistir àquelas imagens. Não foi no oba-oba.

A Família Schurmann acabou virando empresa tendo você como CEO. Como é isso para você?
Virou uma marca, realmente. É uma empresa diferente de qualquer outra, porque lidamos com sentimento. E é algo que nunca queremos tirar da empresa. Há outras que ficam frias, aquela coisa de fábrica. Mas com a gente é diferente, pois lidamos com emoção. É uma empresa de projetos de filmes, de livros e de expedições... Houve uma estratégia para que ela virasse uma marca, mais ou menos no sentido que aconteceu com Jacques Cousteau. E quero que a marca continue por gerações. Tenho um sobrinho que já velejou duas vezes conosco. Portanto, encaro isso como negócio, mas sem perder a nossa essência. E só estamos aqui porque queremos estar aqui. Não sou hippie. Cobro caro quando tenho de cobrar caro e barato quando a situação pede. Ganho dinheiro e faço a minha vida. Contudo, tem uma coisa que busco. Quero proporcionar ao meu filho pelo menos 20% do que meus pais me proporcionaram: conhecer o mundo. Tenho sonho também de fazer com que meu pais continuem nas expedições por muitos anos.

E há muitas brigas nessa família?
Somos uma família como qualquer outra. Há brigas, discussões... Por vezes, até mais, pois temos fortes e diferentes opiniões. E ainda estamos num barco. Não somos uma família margarina. Mas   sabemos lidar com as diferenças. Sabemos brigar, bater na mesa, mas depois terminamos abraçados.

Largar a comodidade de uma vida padronizada é, talvez, o que muitos desejam. Contudo, não é uma decisão fácil. O que você tem a dizer a essas pessoas?

Diria para elas testarem para saber se é isso o que querem. Meus pais planejaram isso durante 10 anos. No primeiro ano da expedição, nossa meta era alcançar Fortaleza. Se até lá não tivesse dado certo, voltaríamos para casa. Mas deu certo e continuamos. Então, as pessoas devem se perguntar sobre o tamanho de seu sonho. Meus pais nunca tinham colocado o pé em um barco até os 25 anos de idade. Não tinham dinheiro. Mas eles definiram uma data e disseram: “Quando o David fizer 10 anos vamos mostrar o mundo para os nossos filhos”. E começaram a planejar.

Por isso o nome expedição, e não aventura...
Mas é uma pena que aqui no Brasil a palavra aventura tenha uma conotação negativa. Aventura é fundamental na vida. Eu me sinto mais seguro num barco que na rua ou na estrada. Senti mais medo de morrer quando apontaram uma arma para minha cabeça duas vezes em São Paulo.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"A morte da Kat foi o momento mais difícil da nossa família" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
E como começou sua história com a Nova Zelândia?
Nova Zelândia virou um lugar especial, antes mesmo da Kat.  Eu quis ficar estudando lá. E meus pais não queriam que eu ficasse sozinho, pois tinha 15 anos. Disse a eles que eu poderia me virar. Mas eles insistiram. Conhecemos uma família e eles propuseram aos meus pais uma troca de filho. Eu ficaria com eles e o filho deles, um ano mais jovem que eu, iria conhecer o mundo com os meus pais. Acordo feito, quando meus pais saíram, depois de três dias, aconteceu uma grande tempestade e deu tudo errado. Eles perderam os barcos e ficaram à deriva. Demoraram 11 dias para regressar. E na época, durante a primeira volta ao mundo, não tínhamos patrocínio. O dano foi de mais de 60 mil dólares e não tínhamos de onde tirar o dinheiro. Gastávamos muito pouco. Vivíamos com mil dólares por mês. Aí os neozelandeses começaram a nos ajudar. Teve um que praticamente reconstruiu o barco. E no final cobrou apenas 1 dólar. Ele disse: “Tomara que quando um neozelandês estiver no Brasil você tenha condições de ajudá-lo”. Essa acolhida nos marcou bastante e, com a história da Kat, ficou ainda mais forte a relação com aquele país.

Sempre foi apaixonado por cinema?
Desde os 13 anos, com a câmera na mão. Cresci dos 10 aos 13 anos nas ilhas do Caribe. Íamos de ilha em ilha. Ilha britânica, americana, francesa... E o cinema era coisa normal nesses lugares. Eu não tinha vídeo em casa. Aí ia muito ao cinema. Adorava ler também. Cresci sem televisão e meu primeiro emprego foi ser diretor de um programa de televisão. Mas acho que tem a ver com a criatividade impulsionada pela leitura e pelo cinema. Adorava imagens e contar histórias. Meu pai me deu uma câmera e comecei tudo na prática e lendo bastante. Foram quase três anos de aprendizado sozinho.

Há semelhanças entre o cinema neozelandês e o brasileiro?
Existem semelhanças e diferenças brutais. A semelhança é que o neozelandês gosta de se ver na tela, quando o filme é bem produzido. Igual o brasileiro. A diferença brutal é no cuidado com o roteiro e na forma de tocar o público. Às vezes, aqui, temos um monte de filmes superartísticos, mas que não encontram público. Isso é um problema. No ano passado, tivemos 120 filmes feitos, mas 80 não foram lançados por falta de público. Não adianta só fazer comédias ou filmes superdensos. Tem de encontrar o equilíbrio, pois aí é possível ter uma indústria autossuficiente e que não dependa tanto de incentivos. Esse equilíbrio acontece na Nova Zelândia.

A indicação de Pequeno Segredo para uma vaga no Oscar foi polemizada. Depois de a poeira ter baixado, qual avaliação você faz do episódio?

Fiquei incomodado com a tentativa de algumas pessoas me colocarem contra o Kléber Mendonça (diretor de Aquarius). Eu estava em Cannes quando eles entraram e fizeram o protesto. Estava na festa do Aquarius com ele e a esposa. Estávamos superorgulhosos do Brasil. E são tipos de filmes completamente diferentes. Também me incomodou alguns críticos importantes escreverem sobre o Pequeno Segredo sem assisti-lo. Podem bater o quanto quiser, mas é importante assistir antes, né? Hoje, depois que a poeira baixou, a indústria cinematográfica saiu em minha defesa dizendo que eu não tinha nada a ver com aquela história. Simplesmente eu fui um cara que produziu um filme.

Depois da polêmica, o Ministério da Cultura não vai mais indicar o filme brasileiro para o Oscar...
Agora a Academia Brasileira de Cinema, que tem mais de 200 pessoas da indústria cinematográfica, é quem vai formar uma comissão para indicar o filme brasileiro para Oscar. São cinco pessoas nessa comissão. E o mais irônico é que eu sou uma delas.

Pequeno Segredo inaugurou uma nova fase em sua carreira? Saiu da produção de documentários para ficção, baseada em histórias verídicas?
Trabalhei 20 anos fazendo documentários. Virou uma página importantíssima e abriu portas que nem eu sonhava. Agora, quero fazer filmes no Brasil e quero trazer produções para cá também. Atualmente estamos na pós-produção do U-513, um longa sobre o único submarino encontrado na América do Sul, da Segunda Guerra Mundial. Deve sair no próximo ano. Estou trabalhando na produção de uma série, baseada em histórias reais, mas da qual ainda não posso revelar detalhes. E tem ainda o filme sobre a missionária americana Doroth Stang, que foi assassinada no Pará.

Qual a bilheteria de Pequeno Segredo?

Mais ou menos 190 mil ingressos vendidos. Bem abaixo do que imaginávamos. Mas saíram batendo no filme.  Pelo menos, hoje, todos sabem quem é o David Schurmann (risos).

Sua mãe, no filme, foi representada como a grande âncora da família...
Ela é assim mesmo. A morte da Kat foi o momento mais difícil da nossa família. Foram dois anos de luto. E a catarse dela foi escrever o livro e receber o contato de milhares de pessoas. Isso aconteceu também com Pequeno Segredo. É claro que nos preocupamos com a bilheteria, mas não é o mais importante. E quando o filme foi exibido lá fora as pessoas ficaram chocadas com a história.

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