
Berço do Clube da Esquina, movimento que emergiu na década de 1970 e revolucionou a música popular brasileira, Santa Tereza viu o nascer de Milton Nascimento, Wagner Tiso, Lô e Márcio Borges, Toninho Horta e Beto Guedes. O disco Clube da Esquina (1972) consolidou o grupo mineiro internacionalmente e transformou a bairro em um mito cultural. Antes dessa turma surgir em cena, Santê já era conhecido como território boêmio. Bares, restaurantes, serestas e encontros sempre marcaram suas noites, atraindo artistas, intelectuais e estudantes. É assim até hoje. Rodas de músicas, shows e eventos na praça e blocos de carnaval fazem parte da rotina. “A arquitetura e os sabores de Santa Tereza são o combo ideal para trazer turistas para conhecer a cultura e o lazer na capital mineira”, afirma Maria Clara Fonseca, do Andu de Dois.
Nas últimas décadas, o bairro passou por uma revitalização gastronômica. Ao lado de bares tradicionais, surgiram estabelecimentos que apostam em uma comida mais autoral e criativa. “Esses espaços fortalecem ainda mais a vocação boêmia do bairro, trazendo novas experiências e ampliando a diversidade cultural e gastronômica da região”, diz Pablo Maia Barbosa, do Carimbó. Nada capaz de descaracterizar ou fazer com que a região perdesse sua identidade. Muito pelo contrário, a cada nova casa, o velho e bom Santê fica ainda melhor. E mais charmoso.
Fizemos uma lista com sete novos endereços no bairro mais boêmio de BH e que você deve conhecer. Ah! E eles ainda deram dicas também dos seus espaços preferidos da Velha Guarda. É só chegar.
Andu de Dois

Nascida em Mirabela, localizada a pouco mais de 60 quilômetros de Montes Claros, a arquiteta-chef sentia muita falta de ver a comida do seu território mineiro ocupar espaço nos cardápios da capital. O restaurante foi pensado para celebrar e exaltar a cultura geraizeira com seus ingredientes como pequi, andu, maxixe, carne de sol e baru. “Costumo dizer que é uma mistura perfeita entre a comida mineira e a baiana”, diz a chef, que não abre mão do coentro nos preparos. O prato mais famoso é justamente o que leva o nome da casa, uma versão de baião preparado com arroz com açafrão, andu verde, carne de sol, farofa de pequi e vinagrete de maxixe. Ainda para atender os “órfãos nortistas de Minas”, o cardápio conta com o Sarapatel galinha, feito com coração e fígado fritinhos na manteiga de garrafa com moela molhuda e brioche na chapa. Outro prato que faz bonito é o arroz com pequi, carne de sol frita, confit de tomate e castanha de pequi. Na parte de sobremesas, o Doce da roça é requeijão brulê, docinho de limão cristalizado e doce de leite com pequi.
Rua Gabro, 41.
Para conhecer ainda mais o bairro: “Para um bom drinque, indico o Fita Bar (Rua Mármore, 30). Já para comer uma comidinha feita no fogão a lenha, o restaurante Fátima Bahia (Rua Salinas, 1375 A). Já o melhor PF é da Gamela (Rua Salinas, 1495).”
Cais Lab

O cardápio foi desenhado valorizando pratos emblemáticos da cultura belo-horizontina, como torresmo e broa, reinterpretados à maneira da casa. A cozinha e o salão são compactos, o que faz da calçada uma extensão natural do bar. A capacidade é de 40 pessoas sentadas. O torresmo é o mais queridinho da clientela, e vem servido com molho de tomates fermentados, vinagrete de amendoim cozido e farofa de broa. Já o prato-assinatura é o Ciclo do Milho, com espetos de moela bem cozida, molho de coalhada caramelizada, húmus de feijão e abóbora, vinagrete de milho e pão de milho. As bebidas dialogam com a cozinha e incorporam processos fermentados em seus preparos. A carta é assinada por Emily, da Verve Destilaria, localizada em Santo Bento do Sul, na serra catarinense. Segundo Carol, a escolha por Santa Tereza foi natural. “O bairro tem identidade forte, tradição boêmia e uma cena cultural pulsante. Belo Horizonte vive um momento de florescimento, com novos projetos surgindo e casas consolidadas se fortalecendo. A boêmia ganhou novos contornos, misturando tradição e renovação.”
Rua Divinópolis, 215.
Para conhecer ainda mais o bairro: “Além do tradicional Bar do Orlando (Rua Alvinópolis, 460), referência histórica de Santa Tereza e parte fundamental da sua cultura boêmia, fomos ao Bar da Lili (Rua Quimberlita, 254) e provamos a melhor coxinha de BH. O atendimento é espetacular
Distrito Pizza

As massas são fermentadas por, no mínimo, 48 horas, feitas com farinha 00 e assada a aproximadamente 450º C por 90 segundos. “Essa alta temperatura faz com que a água da massa evapore rapidamente, formando a borda alta e aerada típica do estilo. Outra característica marcante são as pintas de leopardo, as manchinhas escuras causadas quando o calor intenso do forno encontra uma massa bem fermentada e maturada”, explica Rosi. Entre as tradicionais, estão Margherita e Pepperoni e outras diferentonas como a Costelinha defumada com abacaxi assado e pimenta biquinho. Há ainda uma sessão dedicada a pizzas veganas, como a de pesto de baru e funghi defumado. “Desde o começo queríamos valorizar a culinária mineira e os pequenos produtores locais. Trabalhamos com ingredientes artesanais mineiros, tanto nos sabores tradicionais quanto nos veganos. Queijos e embutidos são todos produzidos em Minas”, diz Rosi.
A pizzaria funciona na casa do avô de Gabriel e guarda muitas das suas memórias de menino. “Santa Tereza está se renovando. Muitos estabelecimentos vêm trazendo uma pegada nostálgica, resgatando os casarões antigos e seus detalhes. Lugares como o Andu de Dois, a Villa Veg, a Casa Umbigo e o Teresa Café reforçam essa atmosfera”, comenta a sócia. Toda quinta, a casa oferece rótulos de vinho a R$ 50 a garrafa, incluindo uruguaios e portugueses. Com capacidade para 40 pessoas, abre de terça a domingo.
Rua Gabro, 90.
Para conhecer ainda mais o bairro: “A Mercearia do Hubert (Rua Mármore, 178) faz parte da história do bairro e tem produtos deliciosos, desde os queijos até os assados aos finais de semana.”
Dona Ninguém

O ambiente é intimista, despretensioso e vivo. A casa fomenta cultura por meio da arte, dando visibilidade ao trabalho de outras mulheres. É assim também na escolha dos fornecedores. Uma das paredes tem a imagem de uma mulher assinada pela artista Mag. Também há uma pintura de Anna Brandão. Presentes de clientes e amigos vão preenchendo aos poucos os espaços, tornando a decoração viva e coletiva. “Escolhemos Santa Tereza porque ele traduz exatamente o espírito que queríamos dar ao bar. É um bairro com identidade forte, ligado à arte e à história cultural da cidade”, diz Carolina, que acredita que o bairro está vivendo um novo ciclo boêmio. “Existe um encontro interessante entre tradição e renovação, a memória construída ao longo dos anos dialoga com novos olhares, novas pautas e outras formas de ocupar a cidade. Esse movimento me parece mais diverso e consciente, com maior valorização de iniciativas autorais, independentes e comunitárias”, completa.
O bar tem alma mineira. O cardápio junta a tradição da comida de boteco com uma pitada especial das raízes libanesas da chef Carolina Mourad. Ela cuida da cozinha junto com a chef Thalita Salmach. “Também era essencial oferecer boas opções vegetarianas e veganas, não apenas como alternativa, mas como parte central do cardápio”, explica Carolina. Um exemplo disso é a Cestinha de banana-da-terra, molho de tomate confit, cogumelos salteados e cebola crocante. Entre os pratos mais pedidos da casa estão o Pão com linguiça, servido com vinagrete, requeijão de raspa e molho de jabuticaba; e o Rosbife com maionese de batata e bacon. Há também o trio de antepastos. Por R$ 42, o cliente pode escolher entre algumas opções como conservas de jiló, quiabo, azeitona e pasta de pimentão, cogumelos salteados e coalhada. De acompanhamento, pão árabe. Aos domingos, tem almoço com duas opções, sendo uma vegetariana. Há comidinhas confortáveis que lembram encontro de família como lasanha, frango assado com maioneses, galinhada e parmegiana. Graças a uma parceria com o chef Salathiel Meneses, natural do Amapá, vira e mexe aparecem no cardápio receitas como ceviche de manga com cupuaçu e lombo de pirarucu com molho de cupuaçu e cuscuz de farinha d’água.
A carta de drinques foi elaborada por Joel Limeira, Amanda Lima e Zadra e conta com clássicos e coquetéis autorais. O Dona Jaque (Joel Limeira) é a combinação de Jack Daniel’s, licor de gengibre, Jägermeister, xarope de mel, limão e cardamomo. Amanda Lima criou o Mi Uva: vodca, uva verde, limão, hortelã e vinho tinto. Já a Marguerita de Zadra é uma releitura com tequila, xarope de maracujá, passata de tomate, limão, sal e pimenta-do-reino, servido com borda de sal e páprica picante e guarnição de queijo.
Rua Hemílio Alves, 142.
Para conhecer ainda mais o bairro: “Sem dúvida, o Bar do 1000ton (Rua Mármore, 825). É um clássico, com prexeca (bolinho de carne) de respeito, cerveja barata e jukebox”
Carimbó Frutas Nativas

O restaurante funciona em uma casa de esquina, no encontro das ruas Dores do Indaiá e Bocaiúva, com mesas na calçada e uma bela vista para a Serra do Curral. O chão é coberto por um piso hidráulico verde e amarelo. Nas paredes rosas, pinturas feitas à mão retratam frutas brasileiras e frases de importantes personalidades, como Darcy Ribeiro, aplicadas em tipografia vernacular. O bar é vibrante. A trilha sonora valoriza ritmos brasileiros - do carimbó à MPB. É o tipo de lugar ideal para um encontro intimista ou para reunir amigos. No balcão, a equipe apresenta sucos e drinques com frutas nativas, como taperebá, graviola, cupuaçu, cacau. O cardápio segue a mesma linha, exaltando insumos nacionais e sabores que contam a história da nossa terra. No comando na cozinha estão Eduardo Vilela e Ana Carolina Carvalho, que desenharam um menu para ser compartilhável, estimulando uma experiência coletiva. O mais pedido é o Pirarucu frito com creme de vatapá paraense e farofa de granola. Outro que faz sucesso, é o Espaguete de ragu de pato, tomates e casca de laranja confitados. Entre os vegetarianos, bolinho de berinjela com molho de pimentão picante defumado, manjericão e queijo Minas. Na seção de petiscos, torresmo de rolo com chutney de taperebá, pedaços de laranja e raspas de limão; e croquete de cupim com geleia de cacau e pimenta.
A marca existe desde 2019, quando abriu a primeira loja no Mercado Novo, no Centro. Chegou em Santê em agosto de 2025. “É um bairro carregado de história e tradição cultural. O clima boêmio, os bares tradicionais, as gerações convivendo nas praças e calçadas criam uma atmosfera viva e afetiva”, diz Pablo. O cardápio não é o mesmo. No Mercado Novo, a casa se restringe em oferecer drinques, sucos e cremes de frutas. Os coquetéis também não fogem da brasilidade, como o Onda Trópica, uma caipirinha cítrica feita de Cachaça de Jambu, taperebá, laranja e limão.
Rua Dores do Indaiá, 93.
Para conhecer ainda mais o bairro: “Adoramos o Bar do Alemão (Rua Quimberlita, 126). Comer um pastel e tomar uma cerveja na calçada, junto aos moradores da região é uma das experiências mais autênticas para sentir de perto a energia do Santa Tereza.”
Teresa Café

Depois desse primeiro endereço, que hoje funciona como fábrica de bolos e tortas, o Teresa Café ocupou um espaço maior, onde está até hoje. É um lugar que atende todo tipo de público, com mesinhas espalhadas, chapa funcionando o dia todo e coisas gostosas para levar para casa, como pães, bolos, roscas, vinhos, biscoitos, cachaças e produtos orgânicos. Para comer ali mesmo, o cardápio é extenso. E tem desde pão francês com dois ovos caipiras a sanduíche de frango assado, com queijo Canastra, maionese de cerveja, picles de cebola roxa e alface.
No segundo andar fica o “Teresa Lá de Cima”, que serve almoço com saladas, massas e risotos. Por R$ 29, o cliente pode escolher três diferentes tipos de pastas combinadas com sete tipos de molhos. Por R$ 49,90, as opções de risotos são filé com gorgonzola; camarão com moqueca; e tomatinhos com cogumelos. É também onde é servido o brunch, que ali recebe o nome de cafezão reforçado.
O nome é uma homenagem à avó do fundador. É dela que vêm as lembranças de comida boa e mesa farta. A casa de dona Teresa, em Papagaios, no interior, era aquela típica casa de avó mineira: cheia de gente, bolo e biscoito na mesa, conversa solta e contação de causos. “Mesmo sabendo que nunca vamos alcançar exatamente aquele sabor e acolhimento, essa é a nossa meta: ter um pouco da casa dela aqui”, diz Rafael.
Rua Mármore, 391
Para conhecer ainda mais o bairro: “É difícil escolher um só — parece que tudo aqui já nasce tradicional. Eu começaria pela esquina do Clube da Esquina (Rua Paraisópolis com a Divinópolis), pegaria essa energia e seguiria para o Orlando (Rua Alvinópolis, 460). Passaria na Mercearia do Hubert (Rua Mármore, 170), comeria um PF na Eskina do Colombo (Rua Mármore, 418) e uma batata recheada no Bar do Nivaldo (Mercadinho Bicalho, Rua Mármore, 556). Para almoço mais cotidiano, o Sheridan (Rua Mármore, 588).”
Buteco Fiado

Os petiscos próprios para serem divididos são os que mais saem, como o Canudinho de carne seca, requeijão de raspa, moranga, couve e limão capeta; e o Filé de sol, com mandioca prensada e manteiga de garrafa. Os tira-gosto fazem uma homenagem aos botecos raiz trazendo releituras como o pastel de carne e queijo e o torresmo. Para fomes maiores, o Galetinho de TV de cachorro assado acompanha arroz biro-biro e farofinha de ovos com bacon. Aos sábados e domingos, a turma se concentra também para almoçar. Entre uma cerveja gelada servida no copo lagoinha e outra, entram as batidinhas que aparecem nos sabores coco com rapadura; amendoim; maracujá com gengibre; e doce de leite. Há também drinques como o Conversa fiada, com limão capeta, cachaça e rapadura. “O bairro está vivendo um movimento muito forte, mais casas chegando, mais gente circulando e valorização da cena de bar e gastronomia sem perder a identidade”, diz Djalma.
Para conhecer ainda mais o bairro: “O Bar do Orlando (Rua Alvinópolis, 460) é o mais antigo de BH. Carrega a história da butecagem e da boêmia da cidade. Imperdível.”