Cresce a procura por escolas bilíngues em BH

Educação internacional com experiências de imersão em inglês cria fila de espera em instituições especializadas na capital mineira. Mas existe idade certa para aprender uma segunda língua?

por Marinella Castro 25/09/2017 14:49

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Violeta Andrada/Encontro
A advogada Letícia Florenzano com os filhos, Vitória e Enzo, alunos da Maple Bear: além da fluência na segunda língua, método de ensino canadense que prioriza o raciocínio e a investigação foi decisivo na escolha pela educação bilíngue (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Let’s talk in english, now?  "Ok", responde com desenvoltura o pequeno Rafael, de 3 anos, antes de engatar uma conversação em inglês. Aluno da Tic Tac Toe, escola infantil bilíngue no bairro Luxemburgo, o pequeno Rafa morou por um ano nos Estados Unidos e agora sua família tem perspectiva de passar mais uma temporada na Flórida, em 2018. Para evitar que o garotinho tenha de enfrentar nova adaptação ao retornar para o país estrangeiro, a mãe buscou uma escola infantil onde o inglês fosse parte da rotina. Se antes a educação bilíngue era muito procurada por estrangeiros, hoje a maior comunicação entre os países e a queda das fronteiras comerciais têm levado muitas famílias a buscar o modelo como forma de garantir naturalmente um segundo idioma às crianças, em sua maioria o inglês. Respondendo à demanda, a oferta na cidade está crescendo e escolas já trabalham com filas de espera.

Na escola bilíngue, os alunos vivenciam o dia a dia do idioma, ou seja, parte das aulas acontece em inglês. A chamada imersão pode ser parcial ou total.  No início, a engenheira Karla Rodrigues, mãe do Rafael, se preocupou. Ela teve uma dúvida comum a muitas famílias que optam pelo bilinguismo. "Logo quando ele começou na escola tive medo que o aprendizado simultâneo de dois idiomas causasse uma confusão e que ele parasse de falar", diz.  O receio não foi para frente. De fato, em suas primeiras semanas nos Estados Unidos, Rafael ficou um mês sem conversar na sala de aula, mas logo deslanchou.  "Observo que meu filho vem adquirindo os dois idiomas com muita naturalidade, e o interessante é que ele sabe exatamente com quem e quando usar cada uma das línguas", afirma Karla.

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A engenheira Karla Rodrigues e o filho, Rafael, na Tic Tac Toe: escola infantil bilíngue desde que o menino chegou de uma temporada nos Estados Unidos (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Mesmo as famílias que não têm planos de morar fora do país têm buscado com maior frequência a opção. A Escola Americana de Belo Horizonte nunca teve tantos alunos em seus 60 anos. Em 2009, eram 100 crianças matriculadas. Hoje são 350. O colégio, que fica no Buritis, opera com capacidade máxima, tem fila de espera e trabalha em um projeto de expansão que vai quase dobrar sua capacidade. "Quando a economia voltar a crescer, mais estrangeiros vão chegar ao Brasil e nós estamos trabalhando para ampliar as turmas e receber esses novos alunos", conta a diretora da escola, Catarina Song Chen.

A instituição segue o currículo e calendário internacionais. Das aulas, 90% são ministradas em inglês. "A educação bilíngue vai ao encontro de um mundo mais globalizado. Além disso, o aprendizado de um segundo idioma fortalece a língua nativa", observa Catarina. Alunos da escola internacional têm conseguido excelentes notas em testes nacionais de português, quando comparados ao resultado alcançado pelas escolas privadas tradicionais. Fluente em quatro idiomas (inglês, coreano, espanhol e português), Catarina Chen diz que o cérebro tem enorme capacidade de se organizar e aponta que o espanhol e o mandarim também fazem parte do currículo.

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Andreza Felix, coordenadora pedagógica da Maple Bear Canadian School: "O inglês é uma atração da escola, mas a metodologia de ensino canadense é muito consistente, desde o material didático até a valorização da formação humana" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Na prática, é o que acabam percebendo os pais dos pequenos poliglotas. Desde os 2 anos de idade, Vitória, de 10, e Enzo, de 9, estudam na escola canadense Maple Bear, que também é bilíngue. Em um sistema de imersão, eles tiveram aulas somente em inglês na educação infantil. Agora, no ensino fundamental, têm uma parte do currículo em português. O resultado é uma segunda língua praticamente sem sotaque. "Certa vez, estávamos no aeroporto e as crianças conversavam com um senhor nativo na língua inglesa. Ele ficou curioso para saber por que os meninos falavam o inglês tão bem", recorda a mãe, a advogada Letícia Florenzano. Ela observa ainda a desenvoltura das crianças quando fazem viagens internacionais.

Entusiasmada com o modelo canadense de ensino, Letícia Florenzano torce para que a escola venha a oferecer no futuro também o high school, correspondente ao ensino médio. "Falar inglês traz um conforto para as crianças, mas na escolha da escola a língua foi apenas um ponto de partida, gosto muito da metodologia canadense, que valoriza o raciocínio, investigação, disciplina e a ética." A escola Maple Bear começou a funcionar no bairro Gutierrez com oito alunos. Hoje já tem unidades também no bairro Santa Lúcia e no Alphaville. Ao todo, são mais de 500 alunos. "O inglês é uma atração da escola, mas a metodologia de ensino canadense é muito consistente, desde o material didático até a valorização da formação humana", comenta a coordenadora do programa de inglês do ensino fundamental, Andreza Felix. Ela explica que a alfabetização acontece em inglês e português, "sem confusão dos recursos gráficos".  A partir do ensino fundamental II, os alunos já começam a ter aulas também de francês e robótica.

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Catarina Song Chen, diretora da Escola Americana em Belo Horizonte, explica que 90% das aulas acontecem em inglês: "Alunos também aprendem espanhol e mandarim" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
A comunicação em  mais de um idioma, especialmente em inglês e  espanhol, que estão entre as três línguas mais faladas do mundo, é uma necessidade do mundo contemporâneo, na opinião da professora da UFMG Laura Miccoli. Especialista no ensino de línguas estrangeiras, Laura também é doutora em educação pela Universidade de Toronto e defende que "todas as escolas que querem oferecer uma educação afinada com o que vivemos deveriam se esforçar para ter um ensino de línguas estrangeiras de qualidade."

Mas nem só escolas internacionais se preocupam com o aprendizado de uma segunda língua desde bem cedo. Na Tarcísio Bisinotto, no Belvedere, crianças de 2 ou 3 anos já cantam em inglês e entendem comandos da rotina diária. A experiência com a educação bilíngue começou no ano passado, com os alunos do ensino integral. A metodologia é a imersão parcial, com algumas aulas e toda a rotina da escola ministrada em inglês. A diretora Renata de Castro Macedo diz que o bilinguismo é uma demanda das famílias e, com o resultado positivo observado no ensino integral, a escola tomou a decisão de estender o projeto.  "A partir do ano que vem,  toda a escola será bilíngue", afirma Renata.

Nascida no bairro Luxemburgo há sete anos, a escola infantil Tic Tac Toe já ganhou uma casa maior para atender a demanda dos pais. A coordenadora pedagógica Andrea Salles explica que a metodologia utilizada é a imersão total, exceto na alfabetização, quando há também aulas em português. "Temos a intenção de crescer devagar, mas já vislumbramos a possibilidade de introduzir o ensino fundamental", diz Andrea. Na maioria das instituições bilíngues os professores são formados em pedagogia e fluentes no segundo idioma. Em algumas, há professores estrangeiros, o que amplia as possibilidades também de um dia a dia mais interativo. "Aprender uma nova língua é abrir o coração para outra cultura", diz Andreza Felix, coordenadora na Maple Bear.

3 perguntas para Laura Miccoli
Doutora em Educação pela Universidade de Toronto e professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da UFMG, ela fala sobre educação bilíngue

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(foto: Violeta Andrada/Encontro)
1) Quais são os efeitos de se aprender uma segunda língua ainda criança?
Quando aprendemos uma língua estrangeira, passamos a compreender melhor nossa língua materna. Além disso, as pesquisas demonstram que só há benefícios como consequência da proficiência em um ou mais idiomas, desde promover a inteligência, entendida como a capacidade de aprender e aplicar conhecimentos e habilidades, a criatividade, a flexibilidade mental. Estudos mostram que ajuda a retardar em até seis anos a manifestação de sintomas de Alzheimer.

2) Existe idade certa para começar a estudar um segundo idioma?
Popularmente, acredita-se que crianças e jovens sejam mais propensos ao sucesso na aprendizagem de línguas, pois até os 10 anos de idade, a plasticidade do cérebro facilita o processo. Essa crença deriva de pesquisas que documentaram existir uma espécie de relógio biológico que predispõe os humanos para aprender línguas. Esse período se extingue na puberdade e quem acredita nessa hipótese considera que a aprendizagem se torna menos natural e espontânea após esse período. Há também a redução do sotaque. Quanto mais jovem um aluno inicia seus estudos, maiores serão suas chances de ter sotaque nativo. Mas, mais importante que um sotaque nativo, é a capacidade de comunicação.

3) Pode haver uma confusão no aprendizado simultâneo da língua materna e de um segundo idioma? E se a criança vai para uma escola onde se aprende um ou mais idiomas e a família não é bilíngue? Ainda assim é válida a formação?
No caso do bilíngue, o cérebro funciona como se houvesse duas mentes separadas. Não há problemas nesse processo, como confusão ou incapacidade de distinguir entre uma língua e outra. Mesmo se a família não falar outra língua, a criança ou jovem não apenas ampliará seus conhecimentos e habilidades, como poderá ser uma referência, incentivando seus familiares a se desenvolverem linguisticamente.

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