Mineira, Localiza se tornou a mais valiosa locadora de carros do mundo

Fundada em 1973, a empresa é um fenômeno que não para de crescer

por Geórgea Choucair e André Lamounier 19/09/2017 14:39

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Gláucia Rodrigues/Encontro
O engenheiro Eugenio Mattar, presidente da Localiza, cujo lucro líquido cresceu 24% no primeiro semestre de 2017, em relação ao mesmo período do ano anterior: "Não estamos restritos às circunstâncias da economia. Temos ambição e agimos rápido" (foto: Gláucia Rodrigues/Encontro)
Desde os 6 anos de idade, Eugenio Mattar, de 64 anos, presidente da Localiza, chamava a atenção pela habilidade com os números. O pai, José Salim Mattar, descendente de libaneses, sempre fez questão de apresentar o penúltimo dos nove filhos como o engenheiro da família. "Na época, a profissão era uma das mais cobiçadas e motivo de orgulho, assim como a medicina", lembra Eugenio. José Salim não teve tempo para saber se a semente plantada na cabeça do filho germinaria. Ele faleceu quando Eugenio tinha apenas 10 anos, em acidente de barco no município de Oliveira, no Oeste de Minas. Mas o que o senhor José Salim não imaginava é que seu sonho seria pouco para o "engenheiro da família". Além de seguir o conselho do pai e formar-se em engenharia civil, Eugenio é um dos quatro sócios-fundadores de uma gigante no mercado de locação de veículos. A Localiza é hoje a maior empresa do setor na América Latina e a mais valiosa do mundo - cerca de 12,5 bilhões de reais - em valores de mercado entre todas as locadoras de veículos com capital aberto no planeta.

Mas o tamanho da companhia ainda é pouco para ambição empresarial de Eugenio Mattar. "Não temos limite", diz ele. "Somos inconformados com o agora." Somente no primeiro semestre deste ano, a Localiza cresceu invejavéis 24% sobre igual período do ano anterior e apurou lucro líquido de quase 250 milhões de reais. "Não estamos restritos às circunstâncias da economia", afirma Eugenio. "Temos ambição e agimos rápido." A expansão aconteceu em cima de tarifas mais competitivas para o consumidor: a companhia baixou de 10% a 30% o preço da locação de veículos e com isso ganhou novos clientes. "Essa capacidade de se reinventar é o nosso DNA", diz o empresário.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Novo edifício-sede da Localiza, no bairro Cachoeirinha, em BH (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O mês de junho deste ano representou um marco na história da Localiza. A sede administrativa da empresa foi transferida do tradicional bairro Funcionários, zona sul da capital mineira, para um edifício recém-construído no bairro Cachoeirinha, área pobre na região Noroeste de BH. Ousado, o projeto atrai olhares por quem passa pelo local. Projetado pelo escritório paulistano Botti Rubin%u200B Arquitetos, com gerenciamento da Myssior, e construído pela Racional Engenharia, o edifício tem 62,2 mil m2 e 26 andares. O paisagismo ocupa lugar de destaque, e nada menos que 60% do terreno é destino ao plantio de árvores e vegetação. No total, a área verde ocupa 18 mil m2.. Uma frase cravada no painel de entrada do prédio dá o recado: "Casa nova, um novo jeito de ser Localiza." A nova sede da empresa é não apenas suntuosa, mas um símbolo de modernidade e eficiência.

O prédio, além de heliponto, tem conceito inteligente, com sistema de refrigeração ultramoderno, fachada de vidro que possibilita aproveitar a iluminação natural e que resulta numa economia de energia de 26%. Nas áreas comuns foram usadas portas automatizadas e sensores de presença e iluminação. Os elevadores contam com sistema de antecipação de chamadas que gera economia de até 30% na energia utilizada, em relação ao sistema tradicional. Os colaboradores contam ainda com vestiário, academia de ginástica, esmalteria e banco.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Os funcionários ficam em salas abertas, sem paredes: comunicação mais fácil e troca de conhecimento (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Em quase todos os andares foram criadas áreas com poltronas coloridas para os colaboradores trabalharem e fazerem reuniões em completa informalidade. Chamados internamente de open spaces, há nesses ambientes sofás acústicos que conseguem amenizar os ruídos dos andares de trabalho. Não há telefones sobre as mesas de nenhum dos funcionários. As conversas são realizadas exclusivamente pelo computador, via Skype. A sala de Eugenio Mattar, assim como de todos os outros trabalhadores, inclusive os diretores, estão em ambientes abertos. Não há salas fechadas, exceto para reuniões externas. Eugenio é o único dos quatro sócios-fundadores ainda à frente do dia a dia dos negócios. Seu irmão, Salim Mattar, presidiu a empresa até 2013 e hoje é presidente do conselho de administração. Os outros dois sócios-fundadores - também irmãos entre si -, Flávio e Antônio Cláudio Resende, estão no conselho de administração.

Eugenio não perdeu as habilidades que deixavam o pai orgulhoso. Tem os números da companhia na ponta da língua e é conhecido por ser rápido na hora de agir, traçar metas ambiciosas para seus liderados e cobrar resultados permanentemente. Seu perfil e o do irmão, Salim, são muito diferentes, mas complementares. Salim é o intuitivo. Carismático e comunicador nato, foi um líder importante quando a empresa precisava desbravar mercado e crescer. Já Eugenio é o organizador da casa. Aquele que pegou a empresa grande, mas que precisa planejar o futuro e desenhar a estratégia para não cair no comodismo.

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A arquitetura valoriza o paisagismo, com 18 mil m2 de área verde: nada menos que 60% do terreno é destinado ao plantio de árvores e vegetação (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Apesar da agenda lotada de compromissos e viagens frequentes a trabalho, Eugenio consegue manter a rotina organizada. É absolutamente pontual. Em uma das entrevistas com a reportagem de Encontro, marcada para as oito da manhã na agência modelo recém-inaugurada no coração da Savassi, onde estão expostas as principais novidades da rede, a equipe de reportagem chegou 10 minutos adiantada para preparar o equipamento fotográfico. Foi recebida na portaria pelo próprio presidente, já a postos no seu primeiro compromisso do dia. A disciplina vem desde a juventude. Ele começou a trabalhar na Localiza enquanto cursava o terceiro ano da faculdade. "No início, muitas vezes ele ia de terno para as aulas e depois saía para transportar as noivas com os carros que elas alugavam", lembra o engenheiro Estevão Bicalho Pinto Rodrigues, amigo há 30 anos e colega de Eugenio no curso de engenharia da UFMG.

Generosidade é a palavra que define o presidente da Localiza, na opinião de Estevão. "Ele gosta de ajudar. Muitas vezes, faz isso sem que a própria pessoa saiba que está sendo ajudada por ele", afirma. A turma, formada em 1975, é unida e costuma fazer viagens anuais, nas quais levam esposas e filhos. "Já teve vez que fretamos três ônibus", lembra Estevão. Eugenio sempre fez questão de ir, mesmo que chegue de última hora. Tenta também estar presente nos encontros semanais da turma, toda quinta-feira, numa pizzaria no Sion. "Temos admiração recíproca. Só não podemos falar muito de futebol", afirma o ex-tenista e atleticano Estevão. Eugenio é cruzeirense roxo e costuma ir ao estádio para ver seu time. Ele praticava futebol, como hobby, até os 55 anos e era juiz de campeonatos femininos da Localiza.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Funcionários da Localiza trabalham na área chamada de open space: sofás acústicos amenizam os ruídos externos (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Agregador, Eugenio está sempre rodeado pela família e amigos, e faz questão de recebê-los em sua casa de campo, em Nova Lima. É onde costuma ir nos fins de semana para relaxar e andar de bike. Trabalha 12 horas por dia, mas garante que consegue equilibrar bem a vida profissional com a pessoal. Além da turma da faculdade, ele circula com frequência em mais dois grupos: o de jogos de cartas, formado por 14 amigos, e o da confraria de vinhos, com 15 integrantes.

O jogo de cartas ocorre todos os domingos à noite há cerca de 10 anos, na casa de campo de Eugenio. "Nosso grupo é muito unido e ninguém gosta de faltar aos jogos", afirma o empresário Marco Antônio Patrus, um dos donos da transportadora que leva o nome de sua família e amigo de Eugenio há 25 anos. "É um momento antiestresse." No jogo de cartas dos amigos,  o perdedor da primeira rodada ouve a seguinte frase em coro: "Volta pra casa! Vai ver Fantástico!". Eugenio dificilmente é alvo da brincadeira, segundo Patrus. "Além de estrategista, ele tem muito controle emocional", diz o amigo. "Ele ganha com muita frequência."

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Estevão Bicalho Pinto Rodrigues, colega de faculdade de engenharia: "Muitas vezes o Eugenio ia de terno para as aulas e depois saía para transportar as noivas com os carros que elas alugavam" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Eugenio é ainda integrante de uma confraria de vinhos, que tem encontros mensais, cada vez na casa de um confrade. Nas reuniões, o grupo degusta bebidas de regiões variadas, geralmente servidas às cegas. "Só ficamos sabendo a origem do vinho no final", diz o acionista do Banco BMG Ricardo Guimarães, integrante da confraria e amigo de Eugenio há mais de 20 anos. "Ele é uma pessoa aglutinadora, gosta de agradar aos amigos", diz. No encontro, o grupo prefere falar de amenidades e sempre evita tratar de negócios. Outro amigo de décadas e também confrade é o empresário Rubens Menin, fundador da gigante da construção MRV. "Ele é disciplinado, inteligente e conciliador. Além de muito educado", diz Menin sobre Eugenio Mattar. "Tenho grande admiração por ele."

O perfil sociável do empresário também é destacado por Camila Mattar, com quem é casado há 18 anos. "Ele faz questão de comparecer aos eventos para os quais é convidado", afirma Camila. O casal tem dois filhos: Daniel, de 16 anos, e Felipe, de 13. Eugenio tem mais duas filhas do primeiro casamento: Gabriela, de 29, e Raquel, de 27. Aos domingos, costuma receber os irmãos e a mãe, Alzira Coutinho Mattar, de 101 anos, para almoçar. "Ele é zeloso com a família e rigoroso com as notas dos filhos. Como sempre foi muito estudioso, tem cobrança e expectativa grande", afirma Camila.

Alexandre Rezende/Encontro
O empresário Marco Antônio Patrus é amigo há 25 anos e faz parte da turma que joga cartas aos domingos: "Ele tem muito controle emocional e ganha os jogos com muita frequência" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Avô coruja, acaba de ganhar o segundo neto, Bernardo, filho da administradora de empresas Gabriela. A primogênita trabalha na seguradora Pottencial, uma das maiores do Brasil no segmento que atua e em cuja sociedade estão Eugenio e seu irmão Salim Mattar. A filha destaca no pai valores como ética, organização, dedicação e honestidade. "Observo isso e tento aplicar no meu trabalho", diz. Tudo sem deixar de lado os momentos de lazer. "O meu pai sempre cultivou hobbies", afirma. Um deles é viajar. Em janeiro do ano passado, por exemplo, reuniu a mulher e os filhos para uma espécie de volta ao mundo no avião da família. Entre os locais visitados, Namíbia, Dubai, Singapura, Indonésia, Roma e Portugal.

Para tocar seu negócio, a grife de roupas femininas que leva seu nome, Raquel Mattar também se inspira no pai. "Tento levar minha empresa com a mesma dedicação que enxergo nele", afirma a mãe de Clemente, de 7 meses, o primeiro neto do empresário. Mas, ao contrário do que fez Eugenio, ela não seguiu o conselho paterno. Ele almejava para Raquel um curso mais tradicional, como administração de empresas. Ela até tentou, mas largou depois do primeiro período. "Não gostei", diz. Estudou moda. No início, Eugenio torceu o nariz. Agora a vocação tem a bênção e entusiasmo do pai. E faz sucesso. Basta conferir os seguidores de Raquel no Instagram, que somam mais de 267 mil fãs. Para se ter uma ideia do que esse número significa, a Localiza tem 12,3 mil seguidores.

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O acionista do Banco BMG Ricardo Guimarães faz parte da confraria do vinho: "Eugenio é uma pessoa aglutinadora, gosta de agradar aos amigos" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A mesma dedicação cobrada dos filhos, Eugenio exige de seus funcionários. "É preciso ter disposição e pensar como o dono", afirma. "Queremos pessoas que não tenham medo do novo e se entusiasmem com mudanças." Essas características fazem parte do perfil de Cristina Chaves, diretora da rede de agências filiadas da Localiza. Ela chegou à empresa para fazer um trabalho temporário de 30 dias. Está lá há 22 anos e tem hoje sob sua guarda nada menos do que 3,5 mil colaboradores, a metade do quadro da locadora. "É importante ter os valores alinhados com o da empresa", afirma Cristina. A inspiração, diz, vem dos líderes. "Eles não baixam a cabeça para obstáculos, tentam sempre superar desafios e acabam saindo mais fortes." A mesma opinião tem Edna Sampaio, gerente de processos e negócios da divisão de gestão de frotas, com o mesmo tempo de casa de Cristina. "Nunca estamos satisfeitos com o atual", afirma Edna, que começou na locadora como analista de sistemas. "Tudo pode ser otimizado."

Em julho, a Localiza deu outro passo estratégico. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra da subsidiária brasileira da americana Hertz, uma das maiores empresas de aluguel de carros do mundo, presente em mais de 155 países, por um valor estimado na época em 337 milhões de reais. Uma parceria de 20 anos vai abranger o uso da marca combinada - Localiza Hertz - na América Latina e a utilização, pela Hertz, da marca Localiza nos principais aeroportos que atendem viajantes brasileiros nos Estados Unidos e Europa. "A parceria nos permitirá ter acesso a informações de nossa indústria de uma maneira muito próxima", diz Eugenio. "Vamos colocar um radar em tudo que acontece no mundo em nosso segmento, como tecnologia e mobilidade."

Alexandre Rezende/Encontro
O empresário Rubens Menin, da MRV: "Ele é disciplinado, inteligente e conciliador. Além de muito educado. Tenho grande admiração por ele" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
De olho no futuro, a Localiza lançou neste ano um novo aplicativo para agilizar a retirada dos carros, sem que o cliente precise passar pelo balção de atendimento. Com o Localiza Fast, é possível fazer o contrato de locação e o check-in. A ferramenta informa a localização de seu veículo com detalhes como número da vaga, placa e foto do modelo. Pelo código de barras, pode-se abrir o carro automaticamente, assim como a cancela do estacionamento. "O mundo hoje está na palma da mão. Queremos dar mais comodidade ao cliente", afirma Eugenio. O aplicativo faz parte do programa de investimento de cerca de 10 milhões de reais destinado a melhorias de produtos e novas tecnologias da empresa.

Mas os bons resultados não decorrem apenas das estratégias agressivas de negócios. Os aplicativos de motoristas particulares, como Uber e Cabify, com seus preços mais competitivos que os dos táxis, revolucionaram o jeito de se deslocar na cidade. "Foi criado um novo mercado. Muitos consumidores passaram a levar a vida sem o veículo próprio", afirma Eugenio. E, quando chega o fim de semana, muitas famílias começaram a alugar veículos para passear. "Viramos um serviço complementar." Essa mudança de comportamento, diz, acontece em todas as classes sociais. "Ter carro custa caro, devido aos gastos com manutenção, impostos e seguro."

Arquivo pessoal
Antônio Cláudio Resende, Salim Mattar, Eugenio Mattar e Flávio Resende, os quatro sócios-fundadores da Localiza, em foto da década de 1980: Eugenio é o único que continua no dia a dia da empresa (foto: Arquivo pessoal)
Eugenio e os outros três fundadores estão longe de fazer parte desse grupo. Eles são apaixonados por carros. "Era um sonho de consumo da nossa geração", diz. O empresário ama dirigir e participa ativamente da escolha dos veículos da locadora. Não raro, compara modelos e faz test-drive de alguns lançamentos que serão adquiridos pela companhia. No dia a dia, dispensa motorista.

Seu primeiro carro foi um Fuscão 1.500, que ganhou do irmão Salim. Aliás, o modelo faz parte da história da Localiza. O grupo nasceu com seis Fuscas usados, comprados a crédito em financeiras diferentes. Para alavancar o negócio, os sócios chegaram a lavar carros, consertar defeitos, trabalhar como motorista e até dormir no sofá do escritório, para oferecer o serviço 24 horas. Eugenio lembra que para crescer foi preciso vender os seis Fuscas iniciais. "Não tínhamos recursos para mantê-los", diz. Anos depois, buscaram os carros para guardar de relíquia, mas não os encontraram.

Arquivo pessoal
Salim Mattar (à frente), com a primeira frota de Fuscas: os sócios chegaram a lavar carros, consertar defeitos, trabalhar como motorista e até dormir no sofá do escritório para oferecer o serviço 24 horas (foto: Arquivo pessoal)
Os fundadores sempre sonharam grande, a começar pela escolha do nome da empresa. Orientados por agência de publicidade, a Localiza veio da associação da palavra locar (Loca) com uma modalidade de aluguel, o leasing (liza). Era importante que o nome fosse pronunciável em qualquer idioma, pois a meta era que seus carros cruzassem fronteiras. É comum ver mesmo estrangeiros falando nos balcões de atendimento: ‘localaiza’ em inglês, ‘localizá’ em francês e ‘localissa’ em espanhol. "E a cor verde é da esperança e o amarelo, da prosperidade", diz Eugenio. Por meio de um acordo de cavalheiros feito entre os acionistas no passado, foi decidido que os filhos não trabalhariam na empresa e que a sucessão seria profissional. "Foi o melhor para o momento, tanto é que deu certo", avalia Eugenio. Mas essa combinação informal começa a ser colocada em xeque. "Temos filhos novos e netos que, em determinadas condições, poderão entrar, se quiserem. Mas isso ainda estamos analisando", afirma.

Eugenio é analítico. Suas decisões são baseadas em dados, fatos e pesquisas de mercado. Mas essa estratégia não fez parte do início da história da Localiza. Salim lembra que descartou todos os conselhos e opiniões na época. Ousado, deixou um emprego bem remunerado para abrir uma locadora de veículos no período da primeira crise do petróleo. A ideia surgiu anos antes, quando era office boy de uma pequena empresa de engenharia. Ao conferir o recibo de uma locadora, vislumbrou que aquele era um negócio extremamente rentável. O plano não foi apoiado por praticamente ninguém, inclusive a namorada na época.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Cristina Chaves tem sob sua gestão 3,5 mil funcionários: "Os sócios são minha inspiração. Eles não baixam a cabeça para obstáculos, tentam sempre superar desafios" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Assim como Eugenio, Salim também seguiu o conselho do pai. Ainda criança, falou com o senhor José Salim que queria fazer aulas de piano. O pai pediu que tirasse aquela ideia da cabeça e tratasse de abrir um negócio, pois aquele papo de pianista não dava dinheiro. Falou: "Você vai crescer, abrir um negócio, ganhar dinheiro, adquirir casa, constituir família e comprar a maior radiola que existir e todos os discos de pianistas". Salim, que não gosta de ouvir lições, costuma dizer que esse foi um conselho essencial em sua vida. E que também se refletiu na do irmão. A empresa dos dois tem hoje 152 mil veículos em seus pátios. Os tais Fuscas ficaram guardados na memória e em poucas fotos já amareladas pelo tempo.

Salim não se fez pianista, mas ele e o irmão Eugenio se confirmaram como dois grandes maestros de uma orquestra que aluga carros como música. Por essa, o pai de ambos, José Salim, não esperava.

Minas é líder na locação


Quando o assunto é locação de veículos, Minas Gerais é líder nacional. Em 2016, a frota das locadoras no estado era de 328 mil veículos, a metade do total do país, de 660 mil unidades, segundo dados da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla). Do total de 12,1 bilhões de reais da receita gerada com a locação no Brasil no ano passado, cerca de 5 bilhões vieram de Minas. "Isso acontece principalmente pelo fato de a Localiza estar aqui", afirma Leonardo Soares Nogueira Silva, diretor regional da Abla, que atua na área há 24 anos.

Empreendedor e filantropo

A Localiza investe em vários programas culturais, esportivos e sociais, principalmente aqueles que estimulam o empreendedorismo. Em 2016, destinou 2,3 milhões de reais a esses projetos. Um deles é o Junior Achievement, do qual Eugenio é presidente do conselho consultivo de Minas Gerais e a Localiza é uma das 18 mantenedoras. Trata-se de uma associação sem fins lucrativos que tem como principal objetivo levar práticas empreendedoras a escolas públicas para alunos do ensino fundamental e médio. Neste ano, o projeto deve atender cerca de 80 escolas em Belo Horizonte e 300 em Minas Gerais. "A ideia é estimular o espírito empreendedor e fortalecer o sistema de livre iniciativa entre os alunos", diz Catarina Lutero Mendes, diretora da Junior no estado. São 21 programas que incentivam jovens a abrir empresas-piloto em suas escolas. Lá eles aprendem sobre gestão, trabalho em equipe e tomada de decisões. "Administram os negócios como se fossem deles", afirma Catarina.

Eugenio faz parte de uma nova e crescente safra de empresários brasileiros que dedicam tempo, dinheiro e influência à filantropia. Foi um dos cofundadores do projeto, que começou na capital há 14 anos. "Ele enxergou há muito tempo a importância de se investir na educação empreendedora", diz Catarina. Eugenio costuma mobilizar outros empresários a investir no programa e incentivar os colaboradores da Localiza a serem voluntários.



 

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