Escolas infantis de BH incluem ioga e meditação no currículo pedagógico

Essas práticas ajudam na concentração e estabilidade emocional

por Geórgea Choucair 19/10/2017 14:40

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Ronaldo Dolabella/Encontro
A professora de meditação e kundalini ioga Érica Silva Albuquerque costuma entoar mantras no início das aulas: "Com eles, as ondas do cérebro se elevam e dão uma sensação de tranquilidade, paz e calma" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
"Ong Namo Guru Dev Namo." Concentrados, de olhos fechados e serenos, os alunos de 3 a 5 anos entoam o mantra e seguem as orientações de Érica Silva Albuquerque, professora de meditação e kundalini ioga, tecnologia milenar indiana. Eles fazem parte do ensino infantil de uma das unidades da escola Vila Buritis, que inseriu as atividades no currículo há três anos. Em tradução livre, o mantra significa "Eu saúdo a energia universal e o caminho divino, que conduzem da escuridão para a luz". Na prática, o sentido vai muito além de uma canção do dia a dia nas escolas infantis. "Com ele, as ondas do cérebro se elevam e dão uma sensação de tranquilidade, paz e calma", afirma Érica, que iniciou o trabalho com crianças há quatro anos. Além de entoar mantras, a professora faz exercícios de respiração, postura, conjunto de poses, relaxamento e meditação no final da aula.

Pouco a pouco, atividades que buscam maior concentração, calma, respiração mais consciente, persistência e paciência, como ioga e meditação, ganham espaço nas escolas infantis. Nesstes tempos em que os pequenos estão cada vez mais conectados com as tecnologias e recebem uma avalanche de informações, os exercícios e as técnicas prometem maior consciência corporal, diminuição da ansiedade e aumento da atenção. É assim que eles vão aprendendo a buscar o equilíbrio entre mente e corpo. Diversas são as origens, as correntes e os métodos da meditação, mas todas visam ampliar o estado de consciência e o controle da mente. E como fechar os olhos por alguns minutos e se desligar de tudo em volta parece difícil demais, quanto mais cedo se começar, melhor. "Tudo que eles aprendem nessa faixa etária vão carregar para o resto da vida", afirma a diretora da escola Miri Piri Brasil, Sat Kartar Kaur (nome espiritual da ioga).

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Regina Beatriz, de 7 anos, costuma repetir em casa algumas posições que aprende na prática de ioga e meditação na escola: a da árvore é uma das suas preferidas (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Inaugurada em 2015, a Miri Piri, no São Bento, nasceu com uma proposta diferenciada para alunos de 2 a 9 anos, do ensino infantil e fundamental: a ioga é a base do currículo, associada à parte pedagógica. Lá, todos os professores têm amplo conhecimento das técnicas de ioga e usam turbantes (que servem para a contenção da energia e promover ajuste cranial agradável) durante as aulas como se fosse uniforme. "Além do conteúdo pedagógico, eles aprendem na prática valores de relacionamentos saudáveis, comunicação, cuidado de si e com o ambiente, além de resolver conflitos", afirma Sat Kartar. Lá a aula de ioga acontece uma vez por semana, mas todos os dias as crianças têm prática de meditação, que costuma durar de três a 10 minutos.

Sat Kartar Kaur diz que seu filho, Dharam Raj, hoje com 5 anos, começou a fazer ioga quando ainda estava em sua barriga. Atualmente, pratica em casa e na escola. "É uma criança com muita energia e criatividade", afirma Sat Kartar. "Acho que a ioga ajuda na tomada de decisões, que é muito forte nele." Gabriela Aquino Rabello, de 4 anos, é outra que começou na prática antes mesmo de chegar ao mundo. "Se a pessoa não tiver um equilíbrio emocional, não dá conta das pressões atuais", diz a mãe da menina, a representante comercial na área de aromaterapia Ana Paula Aquino Rabello, praticante da atividade há oito anos. Aluna do Miri Piri, Gabriela iniciou as aulas há dois anos e hoje acompanha a mãe em casa, mas em períodos curtos, de cinco minutos. Outros dois colegas da Miri Piri, Luisa Corrêa e Raul Laender Matta Machado, de apenas 3 anos, costumam acompanhar Dharam na atividade. "É importante a prática na escola", diz a empresária Piarjeet Kaur (nome espiritual da ioga), adepta da prática há seis anos, mãe de Luisa. "É o tempo que a criança tem para observar o que está sentindo e suas reações." Já a mãe de Raul, Beatriz Trindade Laender, começou a praticar ioga há poucos meses. E está sofrendo um pouco para se adaptar. "Quando se começa cedo, a atividade fica mais natural ao longo da vida", diz. "É importante estar conectado consigo mesmo e é difícil para as mães ensinarem a meditar."

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Os alunos do Miri Piri Raul, Dharam Raj e Luisa costumam praticar com frequência ioga e meditação na escola: a atividade é a base do currículo, aliada à parte pedagógica (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Há estudos, inclusive, que relacionam os benefícios da ioga e meditação à melhora do rendimento escolar. "Alguns alunos passaram a ter mais sucesso nas provas depois que começaram a fazer as técnicas de respiração e concentração antes de responder as questões", afirma Érica, da Vila Buritis. "O problema de muitos é a ansiedade, que tira a calma na hora das avaliações."

A garotada cada vez mais tecnológica precisa de dispositivos para voltar ao universo mais natural e próximo do infantil, avalia Andréa Aparecida Araújo Zica, uma das associadas e integrante da equipe gestora do Casa Viva, no Cidade Jardim. A ioga e a meditação para alunos de 6 a 11 anos fazem parte da grade curricular da escola desde 2016, ministrada pela professora de hatha ioga Mariah Mello. "Incluímos a prática na grade para assegurar a frequência e assiduidade. Ajuda na concentração, conhecimento de si, do corpo e das emoções", diz Andréa. Beatriz Yanamoto e Regina Beatriz, ambas de 7 anos, alunas do 1º ano do ensino fundamental da Casa Viva, têm a natureza calma e concentrada. Regina costuma repetir em casa algumas posições que aprende na prática de ioga e meditação na escola, como a da árvore. "Toda escola deveria ter a atividade no currículo. É fantástico, ajuda na consciência e concentração", afirma a bibliotecária Eliana Nunes Cunha, mãe de Regina. "A atividade deixa a criança mais calma e centrada", diz o servidor público Marcelo Yanamoto, pai de Beatriz.

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A professora de hatha ioga Mariah Mello dá aulas a estudantes de 6 a 11 anos na escola Casa Viva: a atividade faz parte da grade curricular desde 2016 (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Mas como estimular a criançada a parar e respirar? O segredo para despertar o interesse dos pequenos é recorrer ao lúdico, incorporando brincadeiras e contando histórias, que geralmente trazem ensinamentos como compaixão e importância de fazer o bem para o outro. O monge Satyanatha - nome monástico do brasileiro Davi Murbach, que viveu sete anos como monge em Kauai Aadheenam, um dos mais ortodoxos monastérios indianos, com sedes no Ceilão, na Índia e no Havaí - recomenda que a meditação seja de até três minutos para os pequenos com menos de 8 anos de idade. "A criança vai brincar de meditar e se familiarizar com o tema, tentando desenvolver a concentração", afirma.

O aplicativo Vivo Meditação, lançado há três meses, acaba de disponibilizar também a área kids, com mais de 40 meditações infantis, com exercícios que levam à consciência corporal e respiratória. Todo o conteúdo foi criado e gravado por Satyanatha. As meditações infantis são divididas em três faixas etárias: até 4 anos; de 5 a 7 anos; e de 8 a 12 anos. Elas mesclam a voz de Satyanatha como guia da meditação a áudios com efeitos sonoros e lúdicos. "Estamos acostumados a educar crianças com estímulos externos e elas tendem a observar o que está fora e não dentro delas", afirma o monge. A ideia, diz, é que os pequenos possam observar emoções como tristeza e alegria e ter mais familiaridade com o mundo interno.

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Laboratório de inteligência da vida do Coleguium: aula usa histórias lúdicas para ensinar a trabalhar a respiração e técnicas de controle das emoções (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O lobinho azul Tomás e o cachorrinho Geraldo são adorados pela garotada do Coleguium Rede de Ensino, que tem 17 escolas em Minas Gerais, sendo 12 em Belo Horizonte.  Eles fazem parte do laboratório de inteligência da vida, programa iniciado pela rede há três anos para alunos de 3 a 15 anos (ensino infantil a fundamental II). "Através dele queremos ensinar as crianças a trabalhar a respiração e técnicas de controle das emoções em situações de conflito e frustrações", afirma Guilherme Cintra, diretor geral da rede. "Só resultado não é suficiente para que se desenvolvam como adultos."

Os bichinhos, de pelúcia, são os personagens de histórias contadas pelos professores e vivem experiências próximas do universo infantil, como queda de dente e relacionamentos com amigos. "A ideia não é reprimir os sentimentos, mas monitorar as reações", explica Guilherme. A cada semana, uma criança é sorteada para levar os bonequinhos de passeio para a casa. "Os alunos depois fazem trabalhos na escola sobre as histórias. Lidar com a emoção é um dos processos da educação", diz Guilherme.

Recorrer ao lúdico é uma das chaves de sucesso nas práticas de controle das emoções da meninada. O  livro Quietinho Feito um Sapo, que traz exercícios de meditação para crianças e pais, da holandesa Eline Snel, é best seller na Europa, com mais de 350 mil exemplares vendidos, e faz sucesso no Brasil também. A publicação, verdadeiro bê-à-bá da prática do mindfulness - atenção plena, em português -, utiliza o sapo como referência para exercitar foco no presente. Traz ilustrações graciosas, mesclando teorias e práticas com sugestões de jogos e brincadeiras que ajudam a meditar.  Capaz de dar saltos enormes, o sapo também consegue ficar quieto por um bom tempo. Mesmo ciente de tudo o que acontece ao redor, não reage prontamente. "O sapo senta quieto e respira, guardando energia em vez de se deixar levar por todas as ideias que passam por sua cabeça", diz um trecho do livro. Um bom e difícil exercício, tanto para gente miúda quanto para os grandões.

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