Moradores do Cidade Jardim contam como é viver em um bairro preservado

Do total de 250 casas, 80 estão indicadas para tombamento pela prefeitura

por Geórgea Choucair 27/11/2017 14:15

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Violeta Andrada/Encontro
O compositor Pacífico Mascarenhas tem um museu de antiguidades mecânicas na sua casa, em terreno de 2 mil metros quadrados: "As coisas que tenho aqui não caberiam em lugar nenhum" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Uma mansão de pedra talhada na fachada, esculturas e paisagismo estilo europeu, com árvores podadas de forma arredondada e em espiral chama a atenção na entrada do Cidade Jardim. Se a suntuosidade e a beleza na arquitetura causam a admiração do lado de fora, por dentro não é diferente e deixa qualquer visitante boquiaberto. É quase um palacete no estilo clássico. O cuidado minucioso na decoração e a escolha das peças ficam por conta da proprietária, a empresária portuguesa Maria Vitória Capelão. Os cinco arcos na varanda, na parte da frente da casa, fechados com vidro, dão um aconchego ao ambiente e permitem visual privilegiado do bairro. Na parte de dentro, o recanto sofisticado de Maria Vitória nem parece que é frequentado por família grande, com quatro filhos e sete netos.

Na área social, o mármore português no piso divide os ambientes com o taco.  As paredes são de seda em mantas de espuma, que harmonizam com as cortinas de seda italiana. No teto de uma das salas, painel com anjos da artista plástica Yara Tupynambá. Chamam a atenção dos visitantes também os lustres clássicos em bronze e cristal, as diversas antiguidades e as porcelanas portuguesas pintadas à mão. A mansão tem cerca de 72 anos e foi construída pela família Guimarães, tradicional na cidade. O marido de Maria Vitória, Francisco Luiz Capelão, falecido há dois anos, comprou o imóvel em 1971. Apesar de ser uma residência antiga, Maria Vitória demonstra que é cuidadosa na administração da família, dos negócios e do lar, contando com a ajuda do decorador Ildeu Koscky. Ao ouvi-la contar sua história de vida, é fácil supor que nunca pensou em deixar o bairro. "Só sairia daqui se fosse para voltar para Portugal", afirma.

Ronaldo Dolabella/Encontro
A mansão da portuguesa Maria Vitória Capelão é um dos destaques no bairro: "Só sairia daqui para voltar para Portugal" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Maria Vitória costuma acordar com o canto dos passarinhos e observá-los da varanda de sua casa, em ninhos nas frondosas árvores frutíferas. Ela costuma frequentar os eventos do Museu Histórico Abílio Barreto. Na hora das compras, vai aos bairros vizinhos. "Aqui o comércio é restrito, mas estamos próximos de tudo", afirma. A casa da empresária está indicada para ser tombada, mas ela  não se incomoda se isso acontecer. "Se for para o bem da cidade, não tem problema."

O Cidade Jardim é um antigo bairro residencial, onde moram algumas das mais tradicionais famílias mineiras. Foi planejado segundo o conceito inglês garden city (bairro-jardim), geralmente bairros nobres, destinados às classes sociais mais altas da sociedade. Abriga praticamente só casas, sendo que 80  das 250 foram indicadas para tombamento pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte (CDPCM-BH), que reconheceu o bairro  como patrimônio da capital.

O oftalmologista Luiz Alberto Laborne Tavares mora hoje na casa que foi dos avós, Cazimiro Laborne Tavares e Mercedes Furtado Tavares, construída em 1950 pelo arquiteto Raul Cirne. A residência foi comprada pela família em 1972, das mãos do cônsul francês da época. Luiz construiu seu consultório ao lado da residência e faz restrições ao projeto de tombamento da prefeitura. "O assunto é polêmico. Eu não defendo a construção de prédios aqui, mas limitar demais as reformas e negócios pode acabar inviabilizando o bairro", diz.

Violeta Andrada/Encontro
O oftalmologista Luiz Alberto Laborne Tavares, com os filhos Lucas e Isabel e a namorada, Marinez: ele é contra as limitações que o tombamento das casas pode trazer à região (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Ele lembra que a maior parte das casas, que têm em média 1 mil m2, hoje está nas mãos da segunda ou terceira geração. "O tombamento engessa a ocupação e as atividades. Quem vai cuidar dos jardins? Pode até trazer aumento da insegurança", afirma Luiz, há dois anos presidente da Associação dos Moradores, Amigos e Empreendedores da Cidade Jardim (Ame Cidade Jardim).

A história de Luiz com a região é antiga. Ele nasceu em uma casa a um quarteirão da que mora hoje e estudou no Colégio Loyola. A filha Isabel também estuda lá e faz atividades, como inglês, na vizinhança. "A localização aqui é muito boa, com acesso por várias vias", diz o oftalmologista. Ele vai com frequência à praça Godoy Bethônico, em frente a sua casa, com a cachorrinha Lili, da raça shih-tzu. Sua namorada, Marinez Las Casas, mora em um apartamento em Lourdes e conta que encontra no Cidade Jardim aconchego. "Abrimos a janela e vemos crianças, casais de namorados e idosos na praça, em uma região muito central."

É  difícil imaginar também a possibilidade de um sítio na região central de Belo Horizonte com pés de laranja, limão, abacate e jabuticaba, 20 cachorros, galinhas, bem-te-vis e sabiás cantando pela manhã. Pois ele existe e está no Cidade Jardim. É lá que vive o compositor Pacífico Mascarenhas e sua mulher, Emília Margarida Mascarenhas. A casa em estilo rústico foi construída com material de demolição há 40 anos e projetada pelo próprio Pacífico. Abriga peculiaridades inusitadas em terreno de 2 mil m2. O destaque fica para o museu de antiguidades mecânicas, o hobby do colecionador. São mais de 20 carros antigos e mil calotas, além de maçanetas e pneus raros. A coleção é apenas um pedacinho do que ele juntou nos últimos anos. "Já tive 118 carros, mas vendi", afirma. Raridades estão por lá, como o Packard Super Eight Convertible Sedan de sete lugares de 1937 usado por Juscelino Kubitschek, o Cadillac Limousine de 1926 que pertenceu ao cantor argentino Carlos Gardel e o Lincoln Custom Limousine de 1941 usado pelo Ministério da Marinha, modelo idêntico ao do filme O Poderoso Chefão. "Não vendo nada mais", afirma Pacífico. E já que não vende, não pode nem pensar em sair do bairro. "As coisas que tenho aqui não caberiam em nenhum outro lugar", diz.

Ronaldo Dolabella/Encontro
O advogado Abílio Machado (que aparece com um tampão no olho devido a um câncer no canal lacrimal) faz ressalvas em relação ao projeto de tombamento: "Vai limitar a venda, reforma e chance de negócios" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Cada cantinho da casa tem uma história para o compositor. Foi lá que criou os três filhos, Francisca, Alexandre e Carlos, e agora recebe e faz as festas de aniversário dos quatro netos. "Eles gostam de brincar na área livre", afirma Pacífico. O ambiente tranquilo e silencioso é também ideal para Pacífico, pioneiro da bossa nova, tocar piano e violão. "Quando cheguei a rua era toda com pedra pé-de-moleque", lembra.

O advogado Abílio Machado Neto mora com a mãe, Maria Aparecida de Oliveira, em uma casa modernista construída no bairro em 1960 pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos. Como a maior parte das residências da região, espaço ao ar livre não falta ali. Os cinco filhos, 11 netos e cinco bisnetos almoçam todos os sábados com Maria Aparecida, de 96 anos. Abílio tem familiaridade com a região, já que está lá desde os 5 anos de idade. O trânsito, segundo ele, ficou muito complicado ao longo dos anos, principalmente nos horários de pico. A sua casa é uma das indicadas para tombamento. Abílio faz ressalvas em relação à legislação. "Vai limitar a venda, reforma e chance de negócios. Aqui pode se transformar em bairro fantasma." Ele afirma ser a favor de preservar o patrimônio, mas com critérios e contrapartidas. A vantagem do tombamento, segundo muitos moradores, por enquanto fica restrita basicamente à possível isenção do pagamento do IPTU, que é bem elevado na região. "As casas são grandes e antigas, quase todas precisam de reformas. Elas estão se deteriorando e perdendo o valor", diz Abílio.

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