Coworking está em alta em BH

De pequenos empresários a grandes companhias, os espaços de trabalho compartilhados têm conquistado empreendedores e profissionais liberais da capital mineira por oferecer formatos variados de convivência e cooperação

por Pedro Biondi 27/02/2018 13:38

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A arquiteta de interiores Samira Adder: "Alterno as vindas ao coworking com o trabalho em casa" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A arquiteta de interiores Samira Adder chega ao escritório - uma casa modernista repleta de profissionais de áreas, idades e estilos variados -, escolhe o lugar onde quer trabalhar e liga seu computador, que se conecta automaticamente à rede wi-fi. Às vezes, reúne-se com algum cliente. Se a fome ou a vontade de comer aperta, vai atrás de um bolo de fubá com calda de goiabada e de um chá gelado. Samira não pertence à mesma empresa que os profissionais que estão à sua volta. Não é ela que aluga o imóvel no Funcionários, nem quem mantém contrato com um provedor de internet. A limpeza e a segurança do local não passam por suas preocupações. Ao sair, mesmo se for uma das últimas, não precisa apagar a luz, ligar o alarme ou trancar a porta que dá para a rua - no caso, a avenida Afonso Pena. Apenas acerta o que consumiu. "Alterno as vindas aqui com o trabalho em casa", diz. "Moro no Buritis e venho quando tenho um compromisso ou uma burocracia a resolver no Centro, ou só para mudar de ambiente, o que me faz render mais." Como ela, milhares de belo-horizontinos têm optado, por filosofia, circunstância ou economia, pelo coworking (em tradução livre, trabalho compartilhado ou colaborativo, ou lugar onde isso acontece).

O Guaja, onde Samira fincou sua bandeira há um ano, é um dos 47 espaços na capital - entre 67 em Minas Gerais - detectados pelo Censo Coworking Brasil em 2017. Belo Horizonte aparece como a terceira cidade em quantidade de estabelecimentos, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro, e o número aqui praticamente dobrou em relação ao ano anterior. De acordo com o levantamento, temos 2.557 estações de trabalho em Minas, por onde circulam, em média, 25 mil pessoas por mês. Esses espaços movimentaram 10 milhões de reais em 2016. Em BH, esses lugares se concentram fortemente na região Centro-Sul, em bairros como Savassi, Funcionários e Lourdes. Apostam em arquitetura e decoração mais sóbrias, mais descoladas ou mais simples, em sintonia com a proposta e o público-alvo. A expectativa é de que no censo deste ano, que deve ser divulgado no segundo semestre, esse número cresça significativamente.

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Área externa do Guaja, no Funcionários: corworking acaba de abrir uma loja pop-up no Shopping Cidade (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Agora no MM Coworking, no Estoril, o arquiteto Leonardo Fogli já teve escritório em sede própria. No ano passado, experimentou outros espaços compartilhados antes de se sentir confortável. Ao lado da possibilidade de trocar ideias e conhecimentos, ele ressalta a racionalização de gastos. "Aqui desembolso por volta de 600 reais ao mês. Com tudo por minha conta - luz, correspondência, copa, impressão, telefonia, internet rápida - gastaria três vezes mais. Sem falar num investimento de 15 mil a 20 mil reais para um mobiliário adequado", calcula. Para o engenheiro Laércio Silva Jr., a flexibilidade foi fator determinante para a decisão por um espaço comum no prédio da CWK Coworking na Savassi. "Meu trabalho é sujeito a fatores sazonais. De acordo com o crescimento da economia e a época do ano, às vezes tenho cinco obras para acompanhar, mas já cheguei a ter 30", diz. Assim, além dos três funcionários fixos, ele precisa contratar temporários por alguns meses, sejam eles orçamentistas, desenhistas ou estagiários. "Consigo crescer a estrutura sem crescer o administrativo, sem me engessar." Fundadora da CWK, a empresária Bruna Lofego franqueou sua fórmula, presente hoje em mais quatro unidades (Luxemburgo, Nova Lima, Rio de Janeiro e São Paulo). "Quando abri, em 2010, contavam-se nos dedos as opções no Brasil e praticamente não se encontrava conteúdo a respeito desse modelo", afirma. Em viagens para a Europa e Dubai, nos Emirados Árabes, aproveitou para conhecer os escritórios compartilhados de lá.

Atualmente, as comodidades dos coworkings podem incluir vaga de estacionamento, material de papelaria e pequenas bossas como café moído na hora, um bom queijo canastra ou vestiário. O ambiente comum custa geralmente entre 400 e 900 reais por mês, com a possibilidade de meio expediente. Salas para quatro pessoas, de 2 mil a 4 mil reais. Geralmente há ainda um pacote mais básico, o escritório virtual, que consiste em secretariado e endereço comercial, para quem trabalha em casa, em alguns casos com direito a uma cota de uso de sala de reunião. Com assinatura na faixa de 150 a 350 reais, essa modalidade não aproveita um benefício do modelo: o networking, ou seja, a construção de contatos profissionais com base na convivência.

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Matheus Brisola, coordenador de anfitriões do Guaja, que parou de cobrar pelo uso na parte do café: "O movimento e o faturamento aumentaram" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Instalado em sala da Synergyco Executive Offices, no Luxemburgo, o dono de empresa de gestão Jainir A. Junior já fechou negócios com vizinhos de andar. Atualmente, é cliente e consultor de um escritório de advocacia, assessorando seus diretores na reestruturação de gastos. Também participa de parceria com o dono do local, o empresário Leonardo de Paula. "A meu ver, BH ainda pode difundir mais uma cultura que vejo em São Paulo e Rio, de promover a interação entre os coworkers com cafés da manhã semanais, por exemplo", diz Jainir. "Eu gero negócios com um parceiro quando indico clientes para ele."

No São Pedro, a fundadora da Aldeia Jabuticaba, centro de brincadeiras e desenvolvimento infantil, reservou uma área para um café anexo, ideia que surgiu depois de estar num lugar assim na capital paulista. "O propósito é poder acolher a família toda. Às vezes fica muito difícil trabalhar com criança em casa", observa Pollyanna Xavier. Ao lado das opções saudáveis de lanche, a dona do estabelecimento, Laurinda Roque, oferece banda larga e tomadas em todas as mesas. "Uma cliente com mudança marcada para a França fez o intensivo de idioma aqui, encontrando o professor e usando o notebook", diz. Ela estima que, nas férias, pais e mães representam mais de metade dos frequentadores. Só 3% dos espaços de trabalho compartilhado são kids-friendly, segundo o censo do Coworking Brasil.

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A empresária Bruna Lofego, fundadora da CWK, que está presente em BH, Nova Lima, Rio de Janeiro e São Paulo: "Quando abri, em 2010, contavam-se nos dedos as opções no Brasil" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Relatos de contratação de serviços ou associação entre usuários de coworking são comuns. Advogados que indicam escritórios de área diversa da sua ou passam a atender alguém conjuntamente, arquitetos que recorrem a contadores e vice-versa, professores de idiomas que têm quase metade do público no próprio edifício, desenvolvedores que conhecem e adotam ferramenta de TI de outra empresa, concorrentes que se unem em empreitadas quando não estão dando conta do volume... Aproximações que, não raro, resultam em novas propostas ou mesmo novas empresas. Sem falar nos casos do tipo "pessoa certa no lugar certo e na hora certa": numa reunião, cliente e fornecedor percebem a necessidade de outra expertise e perguntam se algum dos presentes preenche os requisitos. Um passo à frente, um aperto de mão e é uma nova colaboração ganhando corpo.

Assim como o empreendedorismo, os espaços de trabalho compartilhados também costumam crescer em tempos de crise. "Em 2015, dobramos de envergadura", diz Bruna, da CWK. Naquele ano, a economia brasileira encolheu 3,77%. Dali até 2017, segundo o IBGE, o país fechou 2,88 milhões de postos formais e pela primeira vez o número de pessoas que trabalham por conta própria ou em vagas sem carteira assinada superou o de empregados. A expansão do compartilhamento, no entanto, não é meramente conjuntural, e veio para ficar, na onda de Uber, Airbnb e similares, apostam seus promotores e adeptos. "É o espaço físico seguindo as mudanças tecnológicas", diz Dante Righetto, um dos diretores executivos no Brasil da Regus, que divulga contar com uma cartela de 3 mil endereços em 120 países. "Hoje você não precisa de um computador enorme. Tendo uma conexão wi-fi, resolve-se tudo com um laptop e um celular." Quem contrata um plano da rede pode usar qualquer "porto" desses ao viajar. As instalações seguem o mesmo padrão no mundo todo, com salas privativas, uma recepção, um lounge e uma copa para todos os locatários. Ao lado de autônomos, o formato compartilhado vem sendo usado para downsizing (redimensionamento de estruturas) de grandes empresas e para pesos-pesados do PIB botarem o pé em novos mercados, abrindo filiais.

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Jainir A. Júnior (à dir.), com funcionários de sua empresa de gestão, no Synergyco Executive Offices: "BH ainda pode difundir mais uma cultura que vejo em São Paulo e Rio, de promover a interação entre os coworkers com cafés da manhã semanais, por exemplo" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O próprio dia a dia tende a ir transformando os coworkings. Há três meses, o Guaja parou de cobrar pelo uso de suas instalações na parte de café. "O movimento e o faturamento aumentaram", diz o coordenador de anfitriões (como são chamadas as pessoas que fazem as honras da casa) Matheus Brisola. Os planos vão além disso: a meta é transformar a comunidade já existente em uma rede de profissionais da economia criativa, num modelo de negócios ainda por configurar. A convite do Shopping Cidade, o café montou um pop-up (espaço provisório) no centro de compras. A filial temporária estará lá até 5 de março, totalizando um pouco mais de um mês de vida. Um similar já foi montado no Pátio Savassi.

Os fundadores de outros espaços sinalizam na direção de intensificar, cada um do seu jeito, a vertente cooperativa. Maurício Martins, do MM, lista três iniciativas de cunho social que ele está formatando em torno do escritório partilhado: uma plataforma de educação para o empreendedorismo com o Sebrae; um curso de inglês, com refugiados como professores, para jovens que não têm condição de pagar uma escola particular de línguas; e um projeto de inclusão digital. Consolidar uma aceleradora com base em seu cartel de inquilinos/parceiros é a prioridade para Leonardo, da Synergyco, em 2018. "Desde o começo, meu objetivo não era trabalhar apenas com aluguel de salas, e sim fomentar e desenvolver negócios e aprimoramento."

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A estudante de arquitetura Miriam Duffroyer e o arquiteto Leonardo Fogli, no MM Coworking: "Aqui desembolso por volta de 600 reais ao mês. Com tudo por minha conta - luz, correspondência, copa, impressão, telefonia, internet rápida - gastaria três vezes mais", diz Leonardo (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Tanto para quem investe como para quem usa, esse ecossistema deve ser impactado no futuro próximo, já que gigantes americanos da locação de espaços como Spaces e WeWork estão investindo no Brasil. Ao lado desses escritórios abertos a quem se sentir atraído pelo custo-benefício, empreendimentos de porte voltados a acelerar e consolidar startups, que selecionam as iniciativas candidatas baseados nos resultados iniciais e na chance de "estourar", adotam o hábitat interativo como um de seus pilares. "Quando um banco como o Itaú adere a um modelo como esse, não é à toa", diz Bruna, da CWK, referindo-se ao Cubo, parceria da instituição financeira com o fundo de capital Redpoint para apoiar empresas nascentes na área digital. "Aqui, já temos exemplos como o Semear Innovation [financiado pelo Banco Semear] e a Órbi Conecta, lançada pela MRV, Banco Inter e Localiza." Tudo indica que o compartilhamento é uma moda que veio para ficar.

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