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Tempo destinado a discussões virtuais, grupos de WhatsApp e vigilância da vida alheia pode trazer prejuízos físicos e psíquicos para a saúde

por Geórgea Choucair 10/05/2018 08:20

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Ronaldo Dolabella/Encontro
O empresário Quito Calmon mudou a relação com o celular depois de ter o aparelho roubado duas vezes: hoje curte mais os momentos, como o lazer com a filha, Antônia (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Tente adivinhar quantas vezes por dia você abaixa a cabeça para olhar o celular. Bem, se levarmos em conta a média dos brasileiros, a resposta não é 10, 20, nem 30. Esse número varia de 60 a 100 vezes. Isso significa que os brasileiros conferem o aparelho até 700 vezes por semana. O levantamento foi feito pelo Instituto Delete, Uso Consciente de Tecnologi@s, um centro pioneiro no Brasil responsável pelo atendimento médico e psicológico de usuários abusivos e dependentes de tecnologias. "Essa conexão excessiva pode trazer prejuízos físicos e emocionais", afirma a psicóloga Anna Lucia Spear King, fundadora do instituto. Ela cita, como exemplo, problemas na coluna cervical, cansaço na visão, obesidade, depressão e ansiedade.

O mundo hoje empurra as pessoas para a conexão total e ininterrupta. As mensagens possuem sinal de recebimento e, quando a resposta demora, a ansiedade começa. Os benefícios e a agilidade das novas tecnologias no dia a dia são infinitos, não há como negar. Mas o excesso já preocupa, e os casos de viciados digitais não são poucos. Tanto é que a Organização Mundial de Saúde incluiu a dependência tecnológica na Classificação Internacional de Doenças. O empresário Quito Calmon, do ramo de gastronomia e hotelaria, reconhece que era "viciado" em telefone celular, a ponto de incomodar amigos e até a própria filha, Antônia, de 8 anos. Mas sua relação com o aparelho mudou depois que teve o smartphone roubado duas vezes no ano passado. A última foi na véspera de uma viagem para a Bahia. "Eu decidi fazer um teste e ir sem o telefone", diz. Para se comunicar com a filha, ele voltou aos velhos tempos e comprou um cartão, que usava no orelhão. "Nem sabia que existia isso mais."

Violeta Andrada/Encontro
O alfaiate Marcelo Blade só lê jornais e revistas impressos: "Eu dou uma pirada com esse tanto de informação na internet e redes sociais" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
De volta a BH, Quito chegou a ficar 60 dias sem celular. Hoje está com um aparelho sem conexão com internet, redes sociais e Whatsapp. "Pode ser que compre um smartphone no futuro, mas não sei quando. E vou me controlar no uso", diz. Em seu hotel, em Santana dos Montes, ele já tinha optado por não colocar televisão nos quartos. "Assim, as pessoas acabam fazendo mais caminhadas e contemplando a paisagem", diz. A filha já tem telefone, mas ele acredita que está mais relaxado para curtir os momentos de lazer com ela. "Acho que vou acabar sendo um exemplo para que ela use com a mesma parcimônia."

Fundadora do Delete, Anna Lúcia afirma que Whatsapp, Facebook e Instagram são os maiores ladrões de tempo. No caso das crianças e adolescentes, recomenda que usem a tecnologia no máximo duas horas por dia e sob supervisão dos pais. "A internet é uma porta aberta para o mundo e tem muita gente mal intencionada de plantão", afirma. Pode parecer ironia, mas a própria Randi Zuckerberg, irmã de Mark Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook, a maior rede social da atualidade, lançou o livro infantil Dot!, nos Estados Unidos. A ideia é chamar a atenção de crianças que "desperdiçam" muito tempo on-line e ressaltar a importância de estarem desconectadas por um tempo.

Anna Lucia é organizadora do livro Nomofobia: Dependência do Computador, Internet, Redes Sociais? Dependência do Telefone Celular? O Delete fica no Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem o objetivo de orientar a população sobre os benefícios e prejuízos relacionados ao uso abusivo de tecnologias no dia a dia, apresentando conceitos de uso consciente e etiqueta digital. "A nossa proposta não é a desconexão total, mas fazer o uso da tecnologia conscientemente", afirma Anna Lucia.

Ronaldo Dolabella/Encontro
A dermatologista Lívia Fernanda Santos gosta de curtir a casa com o marido, Marcelo Impelizieri: "Se eu pudesse, não usaria nem o Whatsapp, acho que suga nossa energia", diz ela. (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
É difícil acreditar que ainda há pessoas que não entram nos sites de notícias e só se informam por jornais e revistas impressas, mas elas existem. O alfaiate Marcelo Blade, responsável pelos ternos de grandes empresários, políticos e jogadores de futebol, é uma delas. Todas as informações de seu interesse, como moda, moto, viagem e arte, ele corta e coloca em pastas. Quando precisa, busca e dá uma lida. "Eu dou uma pirada com esse tanto de informação na internet e redes sociais", diz. Ele usa um modelo antigo de aparelho celular, sem Whatsapp e internet. "Eu nem sei usar redes sociais. Quando preciso, ligo para a pessoa", afirma.

A médica dermatologisa Lívia Fernanda Santos descobriu que seus momentos mais felizes dificilmente acontecem quando está conectada ou com uma curtida na rede social. Mas sim quando está cozinhando, fazendo trilhas, andando de bicicleta e curtindo os animais, como a cachorrinha poodle Duda. Essas atividades, ela realiza nas redondezas de sua casa, em um condomínio em Nova Lima, em companhia do marido, o auditor fiscal Marcelo Impelizieri. Os quitutes são preparados com as verduras e frutas das árvores do seu jardim. Os ovos são das mais de 20 galinhas da casa. "Moro em um lugar que é como sítio, gosto de curtir" diz. Lívia já chegou a usar muito as redes sociais, como o Facebook. Ainda tem, mas não entra nem lembra mais a senha. No ano passado, começou a dar as costas para o celular nos fins de semana. O aparelho é colocado na gaveta na sexta-feira à noite e só é retirado na segunda pela manhã. "Se eu pudesse, não usaria nem o Whatsapp, acho que suga a energia", diz. O telefone dela está sempre no modo silencioso.

Ronaldo Dolabella/Encontro
A dermatologista Lívia Fernanda Santos gosta de curtir a casa com o marido, Marcelo Impelizieri: "Se eu pudesse, não usaria nem o Whatsapp, acho que suga nossa energia", diz ela. (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Marcelo chegou a abrir uma conta no Facebook, mas encerrou. "Acho um pouco invasivo", diz. Ele costuma definir um horário para checar o telefone, que geralmente é pela manhã e à noite. "Você começa olhando um videozinho e quando vê já gastou mais de 10 minutos ali", diz. Os hábitos do casal são considerados saudáveis por especialistas no tratamento de vícios digitais. "Quando a tecnologia é a única fonte de prazer na vida, alguma coisa está errada", afirma o psiquiatra Frederico Garcia, coordenador do Centro de Referência em Drogas da UFMG, que estuda as dependências comportamentais. "São problemas novos, que surgiram principalmente depois do smartphone", afirma Frederico. O tratamento, diz, não é simples. "Ainda estamos tateando a melhor forma de fazer isso. As indústrias têm interesse em manter as pessoas conectadas, com estratégias maliciosas."

No segundo semestre deste ano, o Hospital das Clínicas, na UFMG, vai abrir um laboratório para dependências comportamentais, como a tecnologia. "É preciso ter atitudes preventivas nessas situações e não usar a conexão digital para reprimir alguma emoção negativa", afirma Frederico. Para ele, pessoas com dependência tecnológica são mais vulneráveis a doenças como depressão e ansiedade.

Muito conectada, a escritora e palestrante Sônia Jordão tem site, blog, fanpage, canal no Youtube, Facebook, Instagram e Twitter. No Whatsapp, faz parte de vários grupos, alguns com mais de 100 pessoas. "Já aconteceu de eu me prejudicar em tarefas por essa conexão excessiva", diz. Logo ela, que atua também com a gestão do tempo. "Mas eu passei a tomar consciência que não posso deixar me dominar pela necessidade do outro." Sônia não tomou nenhuma decisão radical. Ela não se mudou para uma cabana sem conexão com a internet para escrever seus livros nem cometeu o "Facebookicídio", o suicídio do Facebook. Entre as decisões, passou a deixar o Whatsapp no modo silencioso. Sua conta do Facebook, na qual tinha 5 mil amigos, foi cancelada. Mas ela voltou a abrir, agora com menos de 500 amigos. "Quanto mais amigos, mais tempo gastamos. Hoje sou eu que gerencio o Facebook, não é ele que me gerencia", diz. Resultado: curte mais a vida real.

Violeta Andrada/Encontro
O médico rádio-oncologista Arnoldo Masfra gosta de ouvir músicas em disco de vinil e garante que é possível viver menos conectado. "Acho que os aplicativos acabam deixando as pessoas escravas e mais estressadas" (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Mas é possível viver desconectado no mundo de hoje? O médico rádio-oncologista Arnoldo Masfra é taxativo: "Sim". Ele não está em nenhuma rede social e seu telefone celular não tem conexão com a internet nem Whatsapp. "Acho que esses aplicativos deveriam melhorar e agilizar a vida das pessoas, mas elas acabam ficando escravas e mais estressadas", afirma. Em sua avaliação, as redes sociais afastam, no lugar de aproximar. Quando precisa, liga para amigos, família ou pacientes. "O contato fica mais próximo, podemos escutar o tom da voz", afirma. Ele reconhece que tem perdas na sua desconexão digital. Muitas resoluções do trabalho, por exemplo, são feitas pelo grupo de Whatsapp e ele só é informado do que foi decidido depois. "Eu não sei quanto tempo vou conseguir resistir, mas vou tentar", diz. O médico trabalha muitas horas por dia e, quando chega em casa, quer desfrutar de hobbies como leitura e ouvir música clássica, jazz, bossa nova e rock’n’roll, em discos de vinil. "Eu ganho paz e menos preocupação", diz.

Em vídeo que corre a internet e as redes sociais - como não podia deixar de ser -, o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella fala sobre os abusos da tecnologia. "Esse mundo digital, que é exuberante, vem, em grande medida, estafando um pouco as pessoas", afirma, em entrevista ao apresentador Marcelo Tas. Cortella lembra que não faz muito tempo, quando as pessoas queriam descansar em um fim de semana ou feriado, escolhiam um lugar tranquilo, sem eletricidade, para desligar dos problemas. Mas agora, ao escolher o hotel, a situação mudou. "Qual é a primeira pergunta que fazemos?", diz. Ele mesmo dá a resposta: "Tem wi-fi?"

10 passos para se desentoxicar do mundo digital

  1. Ao dormir, deixe o celular desligado, no silencioso ou longe do seu alcance

  2. Silencie o aparelho durante as refeições

  3. Respeite as pessoas que estão ao seu lado, valorize o momento presente e privilegie as relações ao vivo

  4. Desative os alertas sonoros e ligue o modo silencioso

  5. Estabeleça horários e delimite o tempo de uso por dia. Faça uma coisa de cada vez. A capacidade de fazer várias ao mesmo tempo é um mito

  6. Limpe periodicamente as redes sociais

  7. Dose o uso de tecnologias no cotidiano. Verifique se seu desempenho acadêmico ou no trabalho e se a relação com a família e amigos estão sendo prejudicados pelo uso abusivo das tecnologias

  8. Não troque atividades, compromissos ou encontros ao ar livre para ficar conectado às tecnologias. Escolha relacionamentos e amizades reais em vez de virtuais

  9. Pratique exercícios físicos regularmente. Crie intervalos regulares durante o uso das tecnologias fazendo alongamentos

  10. Fique off-line e valorize o tédio. Ele é fundamental para o bom funcionamento mental

Dicas para o uso consciente do smartphone e das redes sociais

  • Se a mensagem não for para o grupo, envie diretamente para a pessoa

  • Atenção para a postura e movimentos repetitivos ao usar mídias digitais. Estudos indicam que o uso excessivo das mídias digitais como celular ou tablet tem causado obesidade, hérnia de disco, problemas na coluna e lesão por esforço repetitivo, além de depressão, angústia e ansiedade

  • Evite usar o celular quando estiver dirigindo, pois corre o risco de acidentes

  • Evite usar o telefone em lugares públicos ou apertados, como transporte coletivo ou elevador. A sua conversa é individual e não precisa ser compartilhada com outras pessoas

  • Não abale o seu humor com publicações virtuais nem acredite em tudo o que é postado. Cuidado com o que você publica na internet

  • Jogue o lixo eletrônico no local correto. Pense no meio ambiente, recicle os aparelhos fora de uso e evite a troca frequente sem necessidade


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