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Estado de Minas SAÚDE

Dermatologista Rodrigo Maia fala sobre os principais cuidados com a pele

Ele diz que seu trabalho não deve buscar só a beleza, mas a autoestima. E que sentir-se bem é fruto de um modo de vida saudável, que envolve boa alimentação, atividade física, sono restaurador e bons amigos


postado em 22/11/2019 17:42 / atualizado em 26/11/2019 16:36

O dermatologista Rodrigo Maia, da Clínica da Pele, de Belo Horizonte:
O dermatologista Rodrigo Maia, da Clínica da Pele, de Belo Horizonte: "Nós temos de ter alguma aceitação na vida. Não podemos brigar com a aparência o tempo inteiro" (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
Ele conversa com seus pacientes sem pressa e diz que um dos segredos da beleza está na capacidade de cultivarmos bons relacionamentos. Nessa linha, o badalado dermatologista mineiro Rodrigo Maia prefere cuidar da autoestima a realizar tratamentos estéticos focados em resultados rápidos. À frente da Clínica da Pele, fundada há 48 anos por seu pai, o médico Francisco Maia, Rodrigo defende o cuidado integral, que vai além das tecnologias e do último cosmético lançado pela indústria. No Belvedere, sua clínica ocupa um andar inteiro em um edifício comercial. O espaço é sofisticado, com design e tecnologias de ponta, mas o objetivo é usar a medicina para simplificar a vida, em um princípio do slow care (cuidar devagar). Rodrigo não aprova a busca insaciável pela beleza e acha que, afinal, devemos viver em paz com a nossa aparência. E não esquecer o filtro solar, é claro. Ele acredita que fez a escolha certa quando, ainda criança, decidiu ser médico, seguindo os passos do pai. Na família, dermatologia e arte são assuntos próximos: "Se não fosse médico, acho que gostaria de ser artista plástico, como meu irmão", diz. Confira a entrevista.

  • Quem é: Rodrigo Maia, 45 anos
  • Origem: Belo Horizonte (MG)
  • Formação: Graduado em medicina pela Faculdade Ciências Médicas (FCMMG), com residência em dermatologia na Santa Casa de Minas Gerais
  • Carreira: É proprietário da Clínica da Pele, fundada por seu pai, o médico Francisco Maia, que ainda faz parte do corpo clínico, ao lado de Luiz Fernando Diniz, Ana Cristina Franco e Amanda Dell’horto. É membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)

ENCONTRO - A Clínica da Pele completa 48 anos em um mundo que parece se preocupar cada vez mais com a estética. Como vocês trabalham essa busca de seus pacientes?

RODRIGO MAIA - Nossa opção é cuidar da autoestima mais que da estética, que é muito focada em resultados. O nosso negócio não é cuidar da beleza, mas da qualidade de vida das pessoas, do sentir-se bem. Alguns procedimentos estéticos, por exemplo, já existem há mais de 20 anos, só que recentemente ganharam uma repercussão grande. Ganharam nomes como transformação facial, prometendo uma grande mudança, uma construção da beleza. Isso é algo que não acreditamos muito. Nós cuidamos, mas não transformamos. A nossa filosofia é descansar a face, cuidar da pele, dos detalhes, embelezar um rosto. A transformação foge do nosso propósito de existência.

Os procedimentos faciais podem levar a um exagero? Como identificar o limite?

Há um claro exagero nesta busca insaciável pela beleza. E é algo que não  tem jeito. Conseguimos minimizar efeitos do tempo, descansar, estimular colágeno, melhorar a firmeza da pele. Mas grandes transformações não cabem ao homem fazer, nem com a dermatologia, nem com a cirurgia plástica, nem com nenhuma modalidade da ciência existente. Nós temos de ter alguma aceitação na vida. Não podemos brigar com a aparência o tempo inteiro. O que buscamos são pessoas em paz com a aparência e nós podemos ser uma ferramenta que auxilia nesse equilíbrio, nessa aceitação pessoal. Costumo brincar que o melhor modo de medir se há exageros em um rosto não é nas redes sociais, mas na sala de espera dos médicos (risos). Os pares vão se agregando. Quem vem aqui (Clínica da Pele), por exemplo, sabe que nós somos devagar, que cuidamos dos detalhes.

A vida moderna tem ritmo rápido e muitas vezes falta tempo para cuidados pessoais. Como o estilo de vida reflete na pele?

A pele nada mais é que a conseqüência do momento que estamos vivendo, é um reflexo da alma. A atividade física regular, alimentação saudável, qualidade no sono, equilíbrio nas emoções, são pilares básicos de qualquer sinal de saúde. Não adianta querer uma perfeita  pele se não cuidamos da raiz, desses quatro pilares. A qualidade da pele é diretamente proporcional ao equilíbrio na vida e não é dentro de uma clinica dermatológica, exclusivamente, que você terá uma qualidade de envelhecimento. É preciso adicionar esse "para casa" ao estilo de vida. A clínica entra para cuidar de detalhes, é o requinte, a decoração do prato, a sofisticação no tempero.

Mas essa não é tarefa fácil...

Por isso precisamos refletir diariamente sobre a nossa vida. Quais as mudanças podemos fazer, o que faz sentido... Se somos um motor de trabalho sem capacidade de mudar o que não vai bem, precisamos repensar quais são as prioridades.

Por que o brasileiro é considerado um dos povos mais preocupados com a aparência, no mundo?

A beleza é uma forma quase que sem esforço de se ter reconhecimento. A pessoa bela e bem cuidada encanta de maneira imediata. Talvez, em um primeiro momento, ela não precise fazer tanto esforço para ser educada, ter cultura, ser gentil. A beleza fascina, as pessoas são suscetíveis a isso. Ter reconhecimento é sensacional. Eu não quero brigar contra a beleza. Ela é uma busca e traz equilíbrio. Quando uma pessoa está dentro de rotina pesada, dura, e resolve parar para procurar uma clinica de dermatologia, por si só isso já é terapêutico. Ela está se permitindo, mudando os paradigmas. A mulher, principalmente, que é 85% do nosso público, cuida bem de todos e se esquece dela. Quando por um momento ela para e cuida de si mesma, isso lhe faz muito bem.

"Temos de cultivar bons relacionamentos que nos tragam felicidade, que nos façam sorrir. Não existe nada mais bonito que o sorriso", recomenda o especialista (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
É possível envelhecer mais devagar?

Sim. O primeiro passo é melhorando as relações à nossa volta. Quando isso acontece, tudo melhora e a pele também. Essa história de envelhecimento é igual dirigir carro. Você pode dirigir rapidamente ou bem devagarzinho, curtindo a estrada, passeando. Quem determina a velocidade com que você vai envelhecer não são os procedimentos estéticos, não é a competência do dermatologista, é como você se cuida, a responsabilidade com o que vai comer, a quantidade de atividade física que vai fazer, o tanto que você vai relaxar, dormir bem. São esses cuidados que vão influenciar na velocidade do carro.

E o sol, que papel tem nesse contexto?

O sol é um elemento que envelhece a pele, mas uma frase que eu costumo dizer é que o sol faz mais bem para a alma do que mal para a pele. Em excesso ele envelhece, provoca lesões, aumenta o risco do câncer de pele, fragmenta o colágeno. O uso do filtro solar  é das ferramentas mais importantes na prevenção do envelhecimento. Não abusar do sol, ter com ele relação de amizade, e não de amor e ódio, é a melhor alternativa. Se proteger muito contra o sol, ou por outro lado tomar muito sol, não é bom caminho. É melhor ter relação mais estável e moderada. Isso vai favorecer a beleza com longevidade.

Você é do tipo de médico que recomenda trocar as férias de verão na praia por um lugar com menos sol?

Mudar as férias? De preferência eu quero ir junto... Não é o sol das férias o vilão. O câncer de pele, por exemplo, é causado pelo sol cumulativo. Por isso é tão importante a proteção diária. Na praia, é caprichar na proteção, usar e reaplicar o filtro solar, boné, óculos e ser feliz com os amigos e a família. A única coisa que não pode é deitar para tomar sol. O tostex não é permitido (risos).

Qual o fator de proteção adequado para o nosso clima tropical?

O fator de proteção solar vai depender do tipo de pele, do nível de exposição ao sol e do objetivo com o uso do filtro. Se o propósito for uma exposição moderada, para pessoa que não é muito clara, o filtro solar 15 muitas vezes é suficiente. Se for pessoa tratando de manchas na pele, de melasma, ou que tem alguma doença fotossensível, o fator de proteção deve ser maior. Não existe regra. Para prevenção do câncer de pele, o FPS 15, em Belo Horizonte, é suficiente. E mesmo uma pessoa que trabalha na rua, com pele mais morena, o FPS 15, reaplicado a cada duas horas, na quantidade certa, minimiza muito o risco de câncer de pele.

Mas, hoje, existem no mercado filtros com fatores de proteção muito altos, superiores ao FPS 100. Filtros para ingerir, outros com cor...

Filtros com FPS 150 impressionam os leigos. No entanto, para pessoa de pele mais clara, é melhor usar FPS 60, com base por cima e pó compacto. Quanto mais a proteção aumenta, menos confortável para a pele se torna o produto. É preciso encontrar um produto que reaja bem com a sua pele, te traga conforto, só assim ele vai ser utilizado. Quanto a cor, depende do objetivo, não tem regra clara. As mulheres normalmente gostam de filtro com base, porque é mais prático. Nem sempre é obrigatório para a saúde. Já a cápsula ajuda na fotoproteção, mas é equivalente ao  fator de proteção 2. Vai agregar pouco, mas às vezes, no caso de doença em que o paciente não pode tomar sol, a proteção solar oral pode ajudar.

Qual seria uma boa rotina de cuidados com a pele diante de tantas ofertas do mercado?

O que, de fato, precisamos é menos do que o mercado quer vender. Na Clínica da Pele, nossa prática é criar rotina de beleza que tome o menor tempo possível. Acreditamos em coisas simples, objetivas e que dão resultados. O filtro solar é o mais importante. Se tem um cuidado que a maioria das pessoas deve ter é usar o filtro solar, mais importante do que lavar o rosto com sabonete especifico ou usar hidratante à noite.

Dentro dos hábitos diários, qual seria o melhor sabonete para lavar o rosto?

O mais barato possível é o que melhor resolve (risos). Se ficarmos compulsivos demais com a limpeza, a pele não vai gostar, porque ela precisa de lubrificação natural e o sabonete remove tudo isso. A higienização da face pode ser muito suave. É mais remover o que foi usado na pele. Um sabonete neutro ou de glicerina resolve. O excesso de sabonetes muito abrasivos, assim como esfregar demais, normalmente não faz bem. É muito comum pessoas com mania de limpeza, fazerem do banho um procedimento de desinfecção. Eu não recomendo a bucha. Sou filho de dermatologista e nunca usei. Uso sabonete na axila e na virilha. Um pouquinho no rosto e acabou. Enxáguo bem. A água tem poder de limpeza sensacional.

E a hidratação da pele?

Todo creme hidrata, mas o hidratante é veículo que entrega algum principio ativo. Então, alguns trazem antioxidantes para melhorar a sustentação da pele. Tudo depende do objetivo. Eu sou o dermatologista que menos entende de creme, que menos acha que creme é algo fundamental e transformador. Normalmente, eu tenho muito sucesso com prescrições bastante econômicas. A minha história é simplificar o cuidado. Um pó compacto com filtro solar é ótimo. Se o objetivo é fechar os poros, melhorar a textura, manchas, aí vamos entrar com produtos à noite.

(foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
(foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
E esses potes pequenos, que parecem mágicos e custam tão caro?

Eles ajudam porque acalmam a alma. Eu nunca vi ninguém rejuvenescer com o uso destes cremes. Eles podem até prevenir, favorecer a beleza, reduzir a velocidade do envelhecimento, melhorar a pele. O ácido retinóico, por exemplo, a longo prazo, tem bons resultados. Junto com o dermatologista, cada pessoa vai entender o que é bom para ela.

Produtos como a vitamina C e colágeno valem a pena?

A vitamina C tem princípios ativos que podem melhorar alguns aspectos sutis da pele. O colágeno oral sabidamente melhora a sustentação, mas tem de ser usado em uma dose de 10 gramas por dia, misturando o pó em um copo de água. Melhora cabelos, unhas e faz bem para articulações. É uma suplementação que vale a pena.

E os tratamentos estéticos como Botox, laser, ácido hialurônico? Existe um melhor para começar?

Toxina botulínica (Botox) é a etapa 1. É a maneira simples e eficiente de dar um up na aparência. As pessoas gostam, e sentem-se melhor. O objetivo não é tirar ruga, é melhorar o olhar, deixar o rosto mais descansado, elevar a sobrancelha, minimizar linhas. O ácido hialurônico é um produto que usamos há mais de 20 anos, em doses pequenas e devagar. A chamada harmonização facial costuma usar uma dose grande, de uma só vez, o que aumenta o risco de efeitos colaterais e de a pessoa não gostar do resultado. Existem diversos tipos do ácido e cada um é usado para uma região do rosto. Já os lasers, temos diversos, são ferramentas que usamos para resolver alguns problemas. Tudo depende da queixa.

Muitos dermatologistas criticam o fato de os dentistas realizarem tratamentos estéticos. Como você vê essa questão?

Essa análise é uma junção de consciências. Para quem você vai entregar o seu rosto? Os dentistas podem e vão cada vez mais dominar essas técnicas. E isso é possível, por capacidade técnica e estudo de anatomia. Médicos ou dentistas precisam ter consciência no trabalho, o que deve ser regido pela lei e pelos conselhos.

O que não devemos esquecer no cuidado com a pele?

De cultivar bons relacionamentos que nos tragam felicidade, que nos façam sorrir. Não existe nada mais bonito que o sorriso. Ademais, é ter rotina de cuidados, devagar e sempre.



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