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Estado de Minas PERFIL

Como o mineiro Alexandre Birman transformou a Arezzo em gigante da moda

Ele está comandando a expansão da empresa, que comemorou 10 anos da abertura de capital com números para lá de animadores. Em plena pandemia, Birman adquiriu a Reserva e prepara-se para entrar em novos mercados


postado em 02/03/2021 23:37 / atualizado em 02/03/2021 23:37

Alexandre Birman, CEO da Arezzo:
Alexandre Birman, CEO da Arezzo: "Quando enfim vencermos a pandemia, vamos vivenciar uma euforia vista antes apenas no pós-guerra. As mulheres, quando puderem novamente ir a festas, vão vestir brilho e saltos altos como nunca. E nós estaremos prontos para satisfazer os desejos de nossas consumidoras" (foto: Marcus Leoni/Divulgação)
Quando completou 10 anos da abertura de capital da Arezzo, em 2 de fevereiro último, o presidente Alexandre Birman divulgou uma carta aberta a seu pai, Anderson, fundador da empresa calçadista. Nela, exaltou os feitos da última década. E não são poucos os eventos a se comemorar. No período, a Arezzo passou de 303 lojas para 808; a receita foi triplicada e o número de acionistas saltou de 705 para mais de 34 mil. O mercado respondeu positivamente e a ação valorizou 325%. Nenhum ano, no entanto, foi tão desafiador quanto o último. Pandemia, lockdown, lojas fechadas, recessão... Hora de pisar no freio e aguardar o que os novos tempos irão nos legar? Não para o mineiro Alexandre, de 44 anos. Em meio à maior crise sanitária e econômica de sua geração, ele resolveu acelerar. E pisou fundo. Em uma decisão considerada ousada pelo mercado, a Arezzo incorporou a Reserva, marca de moda fundada em 2004, que tem como símbolo um Pica-pau e faz um sucesso danado com o público A e B. Se antes Alexandre se orgulhava por vestir pés femininos no Brasil e no exterior, agora ele passa a vender o que no meio da moda se convencionou chamar de "look completo", para homens e mulheres. E a expansão não irá parar por aí.

A aquisição da Reserva foi anunciada em outubro do ano passado e custou 715 milhões de reais. A negociação envolveu o pagamento de 175 milhões de reais à vista e mais 50 milhões a serem desembolsados aos antigos sócios, Rony Miesler e Fernando Sigal, em um ano. Os outros 490 milhões foram pagos em ações. "Já tínhamos 30% do market share de calçados e bolsas para a classes A e B. Se quisermos expandir, precisamos explorar outros mercados", diz Alexandre. Rony comenta que a parceria vem ao encontro de seu sonho, de reinventar, no Brasil, o negócio de varejo de lifestyle. "O Alexandre é um baita de um gestor e um líder visionário", afirma. "Enquanto o mercado calçadista não se interessava pelo de vestuário, ele, antes de qualquer outro, percebeu e apostou alto que nós vendemos a mesmíssima coisa: estilo de vida." Em 2019, a Arezzo já havia colocado um pé em um novo mercado com a distribuição exclusiva da Vans no Brasil. Atualmente, é o maior grupo de moda do país em faturamento e em número de lojas. Está avaliado em 6 bilhões de reais (Alexandre e Anderson têm, juntos, 47% das ações do grupo). Só para se ter uma ideia do tamanho da empresa, em 2020, todas as marcas do grupo Arezzo venderam 15 milhões de pares de calçados. Esses scarpins, sapatilhas, sandálias e tênis seriam suficientes para cobrir, enfileirados, todo o litoral brasileiro, da fronteira com o Uruguai, ao sul à fronteira com a Guiana Francesa, ao norte.

Alexandre treina de 10 a 15 horas semanais e participa de provas de triatlo - chegou a disputar o campeonato mundial de Ironman em Kona, no Havaí:
Alexandre treina de 10 a 15 horas semanais e participa de provas de triatlo - chegou a disputar o campeonato mundial de Ironman em Kona, no Havaí: "Como esse é um esporte solitário, faço de cada treinamento um momento de reflexão, de entrar em contato com uma camada que existe embaixo da nossa pele" (foto: Arquivo pessoal)
O ano passado trouxe também uma experiência devastadora para Alexandre Birman. Pai de duas meninas - Olga, de 8 anos, e Vera, de 6, de seu casamento com a modelo catarinense Johanna Stein -, ele comemorou, no dia 7 de setembro, o nascimento de seu primeiro filho, Xandinho, com a empresária Gabriela Verdeja. Dois dias depois do nascimento, ainda no hospital, o bebê morreu. Foi vítima da Síndrome da Morte Súbita Infantil, quando o recém-nascido morre sem causa aparente. Nesse mesmo dia, Alexandre escreveu em sua página no Instagram: "Com humildade, acreditamos que ha%u0301 situac%u0327o%u0303es nessa vida, sobre as quais na%u0303o temos nenhum controle. O ce%u0301u recebe hoje nosso anjinho, que vivera%u0301 para sempre em nossos corac%u0327o%u0303es. Te amamos infinitamente, Xandinho". Encontrou forças na religião - é espírita "de nascimento", com afinidade pela umbanda e pelo judaísmo. "Sei que existe uma vida que a gente não enxerga e que Deus sabe o que é certo para a gente", afirma. "Essa é uma cicatriz que vou carregar pelo resto da minha vida, mas a ferida está fechada." O esporte também teve papel primordial na cicatrização. No dia 10 de setembro, ainda de luto, Alexandre acordou, colocou sua roupa de ginástica e foi treinar. Como faz, aliás, quase todos os dias. Alexandre treina pesado de 10 a 15 horas semanais. É praticante de triatlo e chegou a disputar o campeonato mundial de Ironman em Kona, no Havaí - uma prova que exige fôlego e resistências sobre-humanas. São 3,8 quilômetros de natação no mar, 180 quilômetros de ciclismo e mais 42,2 quilômetros de corrida. "Como esse é um esporte solitário, faço de cada treinamento um momento de reflexão, de entrar em contato com uma camada que existe embaixo da nossa pele." Desde jovem o esporte faz parte da vida de Alexandre Birman. Ainda criança, nadava pelo Minas Tênis Clube e chegou a ganhar medalhas de ouro em competições nacionais. Aos 12 anos, participou de um training camp de natação nos Estados Unidos, como são chamados os acampamentos que misturam educação e treinamento em conceituados centros americanos.

Com a atriz Bruna Marquezine, em ensaio fotográfico para uma de suas marcas: companhia quadruplicou o investimento em publicidade ao longo de 2020(foto: Marcus Leoni/Divulgação)
Com a atriz Bruna Marquezine, em ensaio fotográfico para uma de suas marcas: companhia quadruplicou o investimento em publicidade ao longo de 2020 (foto: Marcus Leoni/Divulgação)
Alexandre começou a trabalhar na Arezzo muito jovem. Aprendeu o ofício de sapateiro com o pai, que havia criado a empresa - que tem seu nome emprestado de uma cidade na região da Toscana, na Itália - em 1972, ao lado do irmão, Jefferson (que hoje não tem mais participação na companhia). Frequentava a fábrica localizada na Avenida Brigadeiro Eduardo Gomes, no bairro Glória, na região noroeste de BH, desde a infância. Adolescente, saía cedo para o Colégio Pitágoras e corria para a empresa da família assim que o ultimo sinal tocava. Os treinos de natação ficavam para o fim do dia. Aos 12 anos, Alexandre já conseguia fazer, sozinho, todo o processo de produzir um calçado. "Meu diploma como sapateiro foi fazer um sapato do início ao fim e calçar no pé do meu pai", lembra. "Se me perguntarem o que eu sei fazer, qual meu ofício, eu digo: ‘sapateiro, com muito orgulho’. Mas hoje eu preciso ir além e adquirir outros conhecimentos." Para isso, pouco antes de assumir a Arezzo&Co, em 2013, Alexandre se matriculou na faculdade de negócios da Universidade Harvard, para cursar uma disciplina de gestão para donos e presidentes de empresas globais. "A chegada do Alexandre ao cargo de CEO e minha aposentadoria foi a forma que encontramos de manter a empresa jovem", afirma Anderson. "E os novos rumos mostram que estávamos certos." Anderson conta que chegou à conclusão de que não poderia mais continuar nos papeis de sócio, pai e chefe. "Como não abro mão de ser sócio, nem de ser pai, resolvi que já não era mais hora de ser chefe." Ele garante, no entanto, que é até mais escutado do que antes. "Sem ter nenhum cargo, minhas orientações, que agora não são mais impostas, acabam sendo mais levadas em conta."

Com Rony Miesler, da Reserva:
Com Rony Miesler, da Reserva: "O Alexandre é um baita de um gestor e um líder visionário. Enquanto o mercado calçadista não se interessava pelo de vestuário, ele, antes de qualquer outro, percebeu e apostou alto que nós vendemos a mesmíssima coisa: estilo de vida" (foto: Divulgação)
O mundo da moda começou a prestar atenção em Alexandre Birman logo depois de ele ter voltado de um curso técnico de sapateiro na Itália e ter criado, em 1995, aos 18 anos, a Schutz, marca voltada inicialmente para o público masculino e de esportes. Não demorou para corrigir o rumo e focar a produção no público feminino. O próximo passo foi ganhar o mercado externo com uma grife de luxo, a Alexandre Birman, que já calçou pés de celebridades como Gwyneth Paltrow, Rihanna e Demi Moore. "Dos empresários de sua área, Alexandre se destaca, entre outras coisas, pelo apuro estético", diz a jornalista de moda Maria Rita Alonso, colunista da revista Marie Claire. "Seu olhar refinado se reflete não apenas nos produtos de suas marcas, mas também no cuidado com o design de suas lojas e na busca por parceiros." Em setembro de 2019, ele apresentou a nova coleção de sua marca de alto luxo na Semana de Moda de Paris, no hotel Ritz. O ponto alto foi a visita de Anna Wintour, editora-chefe da edição norte-americana da revista Vogue, tida como a mais conceituada publicação de moda do mundo, e inspiração para o filme O Diabo Veste Prada. Em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Maria Rita conta como foi a reação da todo-poderosa jornalista. Ao ver as sandálias inspiradas na Pop Art e no movimento cinético, Anna aprovou: "Well done", disse ela.

Parceiros não poupam elogios ao se referirem a Alexandre. Para a atriz Marina Ruy Barbosa, que criou a marca Ginger - gíria em inglês que se refere a pessoas como ela, de pele clara, cabelo ruivo e sardas - e costurou uma collab com a Schutz, ela e o empresário se conectaram por terem "o mesmo impulso incansável de fazer e de ser o melhor em tudo o que nos propomos". Em novembro, Marina assumiu a direção de moda da ZZ Mall, plataforma de vendas on-line de 40 grifes, entre marcas da Arezzo&Co e outras, como Spezzato e Vivara. "O convite veio por conta dessa sinergia, desse olhar que compartilhamos sobre a moda, o mercado e da nossa visão em relação aos negócios." Alexandre é uma espécie de imã das queridinhas da moda. Além de Marina (26 anos e 37,6 milhões de seguidores no Instagram), ele chamou para estrelarem suas campanhas a cantora Manu Gavassi (28 anos e 15,8 milhões de seguidores) e a atriz Bruna Marquezine (25 anos e 40,2 milhões de seguidores). A foto de abertura desta reportagem foi feita logo após um ensaio com Bruna na Casa das Caldeiras, em São Paulo, espaço com três grandes chaminés de 30 metros de altura cada uma, que na década de 1920 alimentava a energia de todo o complexo das indústrias do ítalo-brasileiro Francesco Matarazzo, considerado o maior da América Latina naquele início do século XX.

Na comemoração dos 10 anos da abertura de capital da Arezzo, cuja data coincide com o aniversário do fundador da empresa:
Na comemoração dos 10 anos da abertura de capital da Arezzo, cuja data coincide com o aniversário do fundador da empresa: "A chegada do Alexandre ao cargo de CEO e minha aposentadoria foi a forma que encontramos de manter a empresa jovem. Os novos rumos mostram que estávamos certos", diz Anderson Birman (no centro da foto, com o bolo na mão) (foto: Divulgação)
Apesar de poder se vangloriar de ser um "Matarazzo dos calçados", Alexandre quer ir além. Depois de passar a distribuir a Vans no Brasil, comprar a Reserva e entrar forte no comércio virtual, ele mostra-se preocupado com a sustentabilidade não só de seus negócios, mas do planeta. Por isso, investiu na Troc, que exibe o título de maior brechó on-line do Brasil. "Sabíamos que precisávamos colocar um pé na economia circular, mas começar do zero era muito complexo", conta Alexandre. "A Troc surgiu como uma oportunidade de entrar nesse mercado, que é uma sementinha de um novo mundo." Em quatro anos, o brechó já comercializou mais de 130 mil peças, o que significou, segundo a empresa, uma economia de 437 milhões de litros de água e fez com que 566 toneladas de CO2 não fossem jogados na atmosfera. A Troc funciona assim: roupas femininas e infantis, calçados, bolsas e acessórios são enviados gratuitamente para a plataforma, que seleciona aquelas que podem ser vendidas. Cerca de 10 mil peças são recebidas mensalmente e cerca de 40% não são aprovadas pela curadoria, por estarem fora de seu padrão de qualidade. Essas peças são devolvidas para as vendedoras, comercializadas com outros brechós, por um preço menor, ou doadas para entidades sociais. Os modelos aprovados são fotografados e colocados no site. Quem enviou a peça recebe o valor acordado 30 dias após a confirmação da venda, descontada a comissão da empresa. "O consumidor está mais crítico e quer se relacionar com marcas e negócios que estejam alinhados com seus propósitos de vida", diz a fundadora Luanna Toniolo. "A história por trás de um produto, soluções, forma de produção, novas perspectivas e também o pós-consumo são questões que importam para pessoas que estão preocupadas com ética, transparência e com o futuro do planeta."

A atriz Marina Ruy Barbosa, diretora de moda da ZZ Mall:
A atriz Marina Ruy Barbosa, diretora de moda da ZZ Mall: "Eu e o Alexandre temos o mesmo impulso incansável de fazer e de ser o melhor em tudo o que nos propomos" (foto: Fernando Tomaz/Divulgação)
Assim que as primeiras notícias de uma pandemia global chegaram ao Brasil, Alexandre Birman e a Arezzo agiram rápido. Um comitê de crise se reuniu logo no dia 9 de março. Uma das decisões tomadas ali foi investir ainda mais no ambiente virtual, que já era considerado forte, mas poderia melhorar. Deu certo. Apenas nos primeiros nove meses de 2020, o faturamento do web commerce superou em 70% a venda do ano inteiro de 2019 nessa plataforma, atingindo 364 milhões de reais. O perfil de consumo também mudou. Na Schutz, por exemplo, os sapatos de saltos altíssimos deram lugar aos tênis, responsáveis por 40% das vendas.

Na mesma carta endereçada a seu pai, citada no início desta reportagem, Alexandre olha para o futuro: "Que possamos, a cada dia, fortalecer nossas raízes para nunca esquecer nosso passado e crescer nossas asas (agora que temos um pica-pau kkkk) para voar ainda mais alto!" Um futuro otimista. Assim como Alexandre. "Quando enfim vencermos a pandemia, vamos vivenciar uma euforia vista antes apenas no pós-guerra", acredita. "As mulheres, quando puderem novamente ir a festas, vão vestir brilho e saltos altos como nunca. E nós estaremos prontos para satisfazer os desejos de nossas consumidoras." Fôlego e disposição para isso, o triatleta mineiro parece ter de sobra.

Como era a Arezzo na época da abertura de capital, em fevereiro de 2011, e no que ela se transformou. Ações valorizaram 325% no período

Lojas
2011: 303
2021: 808

Receita
2011: R$ 700 milhões
2021: R$ 2 bilhões

Acionistas
2011: 705
2021: 34 mil

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