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Estado de Minas NEGÓCIOS

Vendas de discos de vinil pela internet cresceram quase 30% na pandemia

O hobby de colecionar LPs vem conquistando também o público mais jovem


postado em 15/06/2021 00:23 / atualizado em 15/06/2021 00:29

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Uma das referências do vinil em BH, Ricardo Lopes viaja o mundo em busca de raridades e está abrindo uma loja para vendas on-line:
Uma das referências do vinil em BH, Ricardo Lopes viaja o mundo em busca de raridades e está abrindo uma loja para vendas on-line: "Para mim, o vinil é quase um fetiche" (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
A moda do vinil, que já estava em alta, conquistando seguidores ao redor do mundo, ganhou fôlego novo na quarentena. Ficar em casa, cumprindo o isolamento social, horas a fio em home office, ajudou a esquentar a busca por pequenos prazeres, como ouvir música. No último ano, a procura pelo long play cresceu, graças, em grande parte, às vendas on-line. Apesar de esse ser um mercado em que manusear o produto, analisar suas condições, avaliar a capa e o encarte são importantes as compras pela internet aceleraram. Em tempos de música no streaming, acredite, há um lugar especial reservado para o charme dos bolachões. Segundo relatório da Associação Americana da Indústria da Gravação, as vendas de vinil aumentaram quase 30% em 2020, sustentando a tendência de alta em plena pandemia, onde diversos segmentos encolheram. O comércio de CDs, por exemplo, teve redução de 0,5% no período e os downloads também caíram, 18%. O streaming, grande motor da indústria, viu sua receita crescer bem menos, 9,2%. Mesmo em tempos de tecnologia em alta e economia em baixa, o vinil arrebata paixões. Quem pensa que esse é um papo de colecionador saudosista não conhece o mercado que vem conquistando também o público mais jovem, sustentando negócios promissores.

O casal Fábio Vale e Natália Bonela criou um perfil no Instagram para Ziggy Star: o cachorrinho fã de vinil já tem mais de 7 mil seguidores e milhares de curtidas em seus posts(foto: Arquivo pessoal)
O casal Fábio Vale e Natália Bonela criou um perfil no Instagram para Ziggy Star: o cachorrinho fã de vinil já tem mais de 7 mil seguidores e milhares de curtidas em seus posts (foto: Arquivo pessoal)
O mercado aquecido fez com que o negócio de José Márcio Mourão, dono da loja Acervo, com três unidades em BH e um estoque de 50 mil discos, se mantivesse firme nos meses de pandemia. Apesar do fechamento temporário das três lojas físicas, as vendas seguiram bem pelas plataformas digitais. Nas lojas do especialista em vinil, localizadas na Savassi e na região central, podem ser encontrados todos os estilos musicais, além de pick-ups e aparelhagem vintage original para escutar long plays. A procura por aparelhos, aliás, também cresceu. No mundo do vinil as reprensagens estão a todo vapor, mas os originais são os mais valorizados. Na quarentena, muitos atingiram cotação recorde. Relíquias de Cartola, Caetano Veloso, Tim Maia e Tom Zé, além de clássicos do rock, podem ser negociados por valores que variam de 4 a 5 mil reais. "O som do vinil é mais puro. O CD é muito condensado", diz José Márcio, explicando a preferência do público. Ele teve a ideia de montar a loja, junto com o sócio Célio Freitas, depois de se aposentar como veterinário, há sete anos. Viu o negócio prosperar e acredita que na quarentena as pessoas passaram a curtir ainda mais esse hobby, onde não vale ter pressa. "O hábito de escolher a música para ouvir, limpar o disco, trocar de lado, ler o encarte com a história dos músicos e da música é muito agradável."

Os sócios Celio Freitas (à dir.) e José Márcio Mourão, donos da loja Acervo, com três unidades em BH, têm estoque de 50 mil discos:
Os sócios Celio Freitas (à dir.) e José Márcio Mourão, donos da loja Acervo, com três unidades em BH, têm estoque de 50 mil discos: "O hábito de escolher a música para ouvir, limpar o disco, trocar de lado, ler o encarte com a história dos músicos e da música é muito agradável", diz José Márcio (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
Apesar da praticidade e possibilidades do streaming, o vinil é, para muitos, um estilo de vida. É o caso do psicólogo, musicoterapeuta e baterista Ricardo Lopes, que curte LPs desde a adolescência. Na década de 1980 Ricardo foi dono de uma loja de vinil em Belo Horizonte. Ele lançou moda promovendo leilões de discos. Agora, está retomando a atividade, no modelo e-commerce. Ele acaba de lançar a Wolf Studio &Records, que nasce embalada pelo bom momento que vive o LP. Ricardo conta que enquanto um relançamento de Tim Maia pode custar 140 reais - o exemplar novo em folha -, o disco original sai por mais de 3 mil reais. Em um universo movido a paixões e com pouca oferta esses valores podem crescer rápido, ultrapassando, em alguns casos, cifras como 20 mil reais. "Pense na primeira prensagem do Led Zeppelin, só para dar um exemplo fácil de entender", diz Ricardo. "Os estúdios da época eram mais modestos, artesanais, daí trazerem um som mais real e primitivo." Mas raridades como essa não são fáceis de serem encontradas. "Muitos colecionadores não trocam, não vendem e nem doam sua coleção." Com isso alguns exemplares são muito difíceis de serem garimpados. "Só mesmo quando há a morte de um colecionador e a família decide dispor dos discos", explica Ricardo, que tem mais de 800 discos em sua coleção, muitos adquiridos em viagens pela Europa, especialmente Alemanha, Itália e Inglaterra. Entre primeiras edições, só para citar alguns, Ricardo já encontrou em suas andanças pelo mundo exemplares da banda alemã Gila, de Alice Cooper, Khan e primeiras edições dos Beatles... "Para mim, o vinil é quase um fetiche."

O long play foi inspiração para a Vinil, cerveja artesanal mineira criada por Fabrício Bastos: cada rótulo faz analogia a um álbum e a conexão acontece de acordo com as características da bebida(foto: Arquivo pessoal)
O long play foi inspiração para a Vinil, cerveja artesanal mineira criada por Fabrício Bastos: cada rótulo faz analogia a um álbum e a conexão acontece de acordo com as características da bebida (foto: Arquivo pessoal)
Fãs concordam que mais gente tem descoberto o hobby. Ainda não são 10 da manhã e o consultor de marketing Fábio Vale já escutou dois LPs, lados A e B. Ele gosta de trabalhar ouvindo música, de MPB aos clássicos do rock, um hábito que sempre ajuda na sua produção e criatividade. Em casa, mantém uma coleção bem organizada junto com a mulher, a advogada Natália Bonela. Consumidores assíduos, eles acompanham o mercado bem de perto e notaram a alta dos preços e a valorização acentuada dos discos a partir do ano passado. "Posso dizer que os preços do vinil triplicaram nesse último ano", diz Fábio. Ele acredita que além do efeito do câmbio existe o crescimento da demanda. "Principalmente depois da pandemia as pessoas passaram a dar valor aos pequenos prazeres." Ele e Natália são bastante cuidadosos com os discos. A cada seis meses lavam toda a coleção e trocam os plásticos. Natália faz ainda um trabalho de reconstrução das capas estragadas, garantindo a originalidade. Na sua casa tudo é muito bem organizado. O móvel que recebe os bolachões separados por estilo (samba e choro, bossa e MPB, blues, jazz, rock...) foi planejado sob medida. Juntos o casal lançou o instagram do cachorrinho Ziggy, que é conhecido como o dono dos discos. O blogueirinho Ziggy Star(@ziggystar.dog) também é uma revelação dessa quarentena, já tem mais de 7 mil seguidores e milhares de curtidas em seus posts.

O lado bem humorado desse universo que leva os fãs muitas vezes a cometerem excessos por um LP foi mostrado no filme Alta Fidelidade. Estrelado pelos atores John Cusack e Jack Black, o filme, uma comédia  com participação de atrizes como Catherine Zeta-Jones é passado em uma loja de vinil à beira da falência no subúrbio de Chicago. A história do longa foi transformada em série, lançada no Brasil no segundo semestre do ano passado, disponível no streaming Starzplay. No papel da dona da loja de vinil, a atriz Zoe Kravitz. Em BH o hobby que inspirou o cinema anima clubes de fãs, esquenta o comércio e deu até nome para uma marca de cerveja artesanal. A Vinil, há oito anos no mercado, teve como inspiração o som dos bolachões. O sócio-fundador Fabrício Bastos conta que a música é um hobby que une os sócios. Assim, cada cerveja faz analogia a um álbum e a conexão acontece de acordo com as características da bebida. A cerveja Hurricane, por exemplo, lembra a música de Bob Dylan. Tem grau de amargor alto, é muito aromática e tem alto teor alcóolico. É forte. "Já a Tropicália é leve, muito aromática e refrescante, fácil de beber", diz Fabrício. A Vinil lançou as cervejas 33 RPMs, que remete aos discos de vinil maiores; 45 RPMs, em alusão aos menores, chamados de compactos; e a 78 RPMs, que são vinis chamados de goma-laca, pesados e frágeis, uma espécie de tesouro para os colecionadores. A viagem pelo mundo do vinil tem muitas rotações, e ninguém quer virar esse disco. Ele vai continuar tocando.

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