
Justamente por primar pela liberdade, a folia convida cada um a escolher como e com o que deseja brindar a alegria – e um contingente cada vez maior de pessoas tem decidido fazer isso sem recorrer às bebidas alcoólicas. Para o ator Cristiano Braga, de 35 anos, essa diversidade, inclusive na forma de brincar a folia, é o que caracteriza o bom carnaval. Ele é adepto da sobriedade, mas garante que, em nome dessa pluralidade, nunca saiu “pregando para que as pessoas parassem de beber, nunca fiz o leão do Proerd”. “Cada um deve aproveitar a festa do jeito que quiser, desde que respeite a individualidade do outro”, diz.
Formado em teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele conta que nunca tomou bebidas etílicas – nem nos blocos, nem fora deles – e afirma que isso nunca foi um impeditivo para aproveitar esse festivo período do ano: “Para mim, é bem tranquilo estar em locais com pessoas que fazem consumo desse tipo de bebida. Gosto do carnaval por causa da festa, das fantasias, dos encontros e desencontros, do momento de liberdade e alegria estampada no rosto daqueles que participam”, resume.
No caso de Cristiano, a decisão não tem relação direta com tendências recentes ou com a ideia de um consumo mais consciente, mas com uma história pessoal: “Minha família tem gerações de pessoas alcoolistas, que geraram vários traumas e perdas. Preferi nem tentar usar algo que fez tanto mal, direta e indiretamente, à minha vida”, explica. Ainda assim, ele observa que sua escolha provoca reações diversas: “Algumas pessoas ficam curiosas, outras dizem que quando crescer gostariam de ser como eu; outras se assustam e brincam que não confiam em quem não bebe e outras brincam que vão me fazer beber. Mas, na real, nunca ninguém tentou [convencê-lo a beber]”, diz.
O relato ajuda a ilustrar uma realidade que já aparece nas estatísticas. De acordo com a pesquisa Ipsos-Ipec, realizada a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) para a publicação “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025”, 64% dos brasileiros declararam não beber em 2025. Em 2023, esse índice era de 55%. O crescimento da abstinência é ainda mais expressivo entre jovens: entre pessoas de 18 a 24 anos, o percentual de quem não consome álcool saltou de 46% para 64%; entre 25 e 34 anos, de 47% para 61%.
O levantamento, feito com quase 2 mil entrevistas domiciliares em todo o país, mostra também que a redução do consumo é mais acentuada entre moradores da região Sudeste, especialmente em capitais e regiões metropolitanas – perfil que dialoga diretamente com uma parcela do público que ocupa as ruas durante o carnaval de cidades como Belo Horizonte, onde a festa acontece majoritariamente de dia, em blocos que atravessam horas sob sol forte.
Mas, é bom dizer, a relação dos jovens com o álcool tem, sim, suas ambiguidades. Dados do Relatório Covitel indicam que, embora menos jovens estejam bebendo com frequência, houve aumento no consumo abusivo entre aqueles que bebem. Ou seja: há menos adesão ao hábito, mas maior intensidade entre parte dos consumidores.
Mercado de olho nos consumidores abstêmios
Ao contrário do que os beberrões costumam supor, Cristiano Braga garante que nunca sentiu falta da bebida para sustentar a experiência carnavalesca. “Gosto de uma frase: a gente não perde o que nunca teve. Então, para mim, não faz falta, é o único jeito que sei existir”, diz. O ator observa, inclusive, que sua energia varia independentemente do álcool – de modo que coloca em questão o poder do aditivo em trazer mais animação para a festa. “Às vezes, minha energia é mais alta do que a das pessoas que bebem, e outras vezes é bem mais baixa. Tudo depende do dia, da companhia, do meu estado físico e mental”, diz. Para ele, um dos efeitos mais claros de não beber é saber respeitar o próprio limite. “Por não beber, aceito com maior facilidade a hora de ir para casa.”
E é de olho no comportamento de foliões como Cristiano – aos quais se somam aqueles da geração Z, conforme demonstrado pela pesquisa divulgada pelo Cisa –, que muitas empresas vêm trabalhando para atrair o público que não se deixa seduzir pelas bebidas alcoólicas. Pudera. Os números, afinal, mostram que esse mercado só faz crescer.
No carnaval de 2025, por exemplo, as vendas on-line de bebidas não alcoólicas subiram 79,5%, segundo dados da Neotrust Confi, empresa de inteligência para o varejo. O faturamento da categoria chegou a R$ 15,9 milhões, quase o dobro do registrado em 2024. O destaque ficou por conta dos combos e kits não alcoólicos, que cresceram mais de 600% no período, indicando não apenas compras pontuais, mas consumo planejado. Esse movimento é percebido e confirmado por marcas mineiras de bebidas, que têm apostado, cada vez mais, no lançamento de rótulos alternativos sem álcool.

Ela pondera que, no passado, versões sem álcool chegaram a ser descontinuadas por baixa procura, mas o cenário mudou: “Houve uma mudança considerável no comportamento de consumo no que tange às bebidas alcoólicas e por isso tomamos a decisão de pesquisar e elaborar um produto que atendesse à nova demanda”. Kalika avalia que o carnaval tem funcionado como um termômetro dessa transformação. “Embora seja uma festa tradicionalmente associada ao álcool, há uma demanda cada vez maior por opções que permitam participar da folia com mais autonomia, hidratação e disposição ao longo do dia – e, muitas vezes, ao longo de vários dias seguidos. O consumo sem álcool deixou de ser exceção e passou a ser escolha”, diz.

Ela observa ainda que o consumo sem álcool aparece com mais força em determinados contextos: “Eventos com longas durações, blocos diurnos, foliões que trabalham durante o carnaval, praticam atividades físicas ou escolhem viver a festa de forma mais equilibrada”. Kalika prossegue reconhecendo que há um recorte geracional claro nesse fenômeno: “Observamos um recorte mais forte entre jovens adultos, especialmente millennials e a geração Z, na preferência por bebidas sem álcool”.
Espumante sem álcool e na latinha

Cassiana ainda destaca que, para a empresa, a folia não é um evento isolado, mas o ápice de um trabalho contínuo. “Atuamos ao longo do ano no fortalecimento da marca e na ampliação da participação nos pontos de venda”, diz. Em relação ao perfil do consumidor, ela observa que, embora os jovens impulsionem a mudança, o fenômeno não se restringe a uma só faixa etária. “Cada vez mais pessoas adotam o zero álcool como estilo de vida ou em momentos específicos, como gestantes, pessoas em pausa do consumo de álcool ou que simplesmente preferem essa escolha.”

Mercado cervejeiro percebe a mudança
Já no setor cervejeiro, essa transformação acontece de forma mais gradual. Alexandre Bruzzi, diretor de marketing da Krug Bier, marca fundada em BH, reconhece o crescimento das opções sem álcool: “Cerveja sem álcool e de menor teor estão, sim, crescendo. Nossa Krug Zero apresentou um forte crescimento desde o seu lançamento e já é considerada uma cerveja com volume representativo em nosso portfólio”, conta. No entanto, ele pondera que, especificamente durante o carnaval, a demanda ainda é menor. “No carnaval ainda não conseguimos ver com clareza essa procura por cerveja sem álcool. Há uma procura muito grande por cerveja com álcool”, diz.


Bebida caseira, uma opção
O mixologista João Bernardo Costa, o Jotabê, também acredita que a forma como as pessoas se relacionam com a bebida está passando por uma transformação. “Acredito que estamos vivendo uma mudança de cenário interessante em relação ao álcool, tanto na conscientização quanto na forma de consumo”, afirma, mencionando que a procura por bebidas sem álcool ou com baixo teor alcoólico tem crescido de maneira consistente, o que impacta diretamente a criação por trás do balcão: “Os drinques sem álcool vêm ganhando cada vez mais espaço e, com isso, tendemos a criar possibilidades mais orgânicas, com baixo teor alcoólico, mas com muito sabor e complexidade.”

Para quem vai acompanhar os blocos de rua durante o dia, o mixologista defende soluções práticas, refrescantes e acessíveis – inclusive feitas em casa. “Acho que uma alternativa prática e leve para este carnaval é você mesmo fazer sua bebidinha e levar para o rolê.” A dica é mais uma vez apostar no simples e refrescante: “Indico fazer um chazinho de hibisco, xarope de frutas vermelhas – pode ser polpa congelada do mercado – e água com gás ou água tônica. Fica leve, equilibrado e gostoso”, diz.