Estado de Minas PET

Samuvet soma dezenas de atendimentos e histórias emocionantes

Serviço veterinário de urgência da PBH funciona 24 horas e já realizou socorros, resgates e cirurgias gratuitas na capital


postado em 07/05/2026 07:16 / atualizado em 07/05/2026 07:36

Cena de um cãozinho atropelado na avenida Bernardo de Vasconcelos, região Nordeste de BH, sendo atendido pela equipe de resgate (foto: Rodrigo Clemente)
Cena de um cãozinho atropelado na avenida Bernardo de Vasconcelos, região Nordeste de BH, sendo atendido pela equipe de resgate (foto: Rodrigo Clemente)
O chamado chegou de madrugada. Atropelada, com uma fratura grave na pelve, a cachorrinha Lucy foi socorrida por uma equipe do Samuvet, o recém-inaugurado serviço móvel de urgência e emergência para animais domésticos ou silvestres da Prefeitura de Belo Horizonte. Enquanto recebia os primeiros atendimentos, outro movimento acontecia em paralelo: a tutora, desesperada, mobilizava as redes sociais em busca do animal que havia fugido de casa horas antes, sem sequer imaginar que ela tivesse sofrido um acidente. Seus apelos, felizmente, chegaram até a equipe, possibilitando que o reencontro ocorresse logo. E, o melhor, com Lucy estabilizada após ter recebido atendimento especializado.

“Foi um caso extremamente grave. Se ela tivesse permanecido na rua, muito provavelmente ela acabaria vindo a óbito”, recorda a médica veterinária Jane Karoline Souza Pinto, médica veterinária e diretora de parcerias e projetos da fauna na Secretaria Municipal de Meio Ambiente da capital. “A gente conseguiu devolver para a tutora e fazer esse reencontro. Foi muito emocionante”, completa, destacando que histórias como a de Lucy ajudam a dimensionar o papel de um serviço que ainda começa a se tornar conhecido na cidade.

O Samuvet foi criado para atender situações críticas envolvendo animais. Tem funcionamento 24 horas por dia, todos os dias da semana, e é gratuito. “Esse projeto surge das demandas que já enxergávamos aqui na cidade, principalmente para atendimento de urgência e emergência. A gente tem o complexo público veterinário, mas não tinha ainda uma resposta pública de pronta resposta, para conseguir dar esse atendimento na rua”, explica Jane, mencionando que a iniciativa foi estruturada a partir de experiências anteriores com grupos independentes de resgate, mas ganha agora caráter institucional. 

Na prática, o Samuvet funciona de maneira semelhante ao atendimento de emergência para humanos: é voltado exclusivamente para situações críticas. Casos de atropelamento, hemorragias, brigas entre animais ou ocorrências em locais de difícil acesso %u2500 como bueiros, árvores ou o leito do Arrudas %u2500 estão entre as principais demandas. Já situações de abandono, animais magros ou doentes sem risco imediato não entram no escopo.

O acionamento é feito por telefone (31 2888-0000), seguido do envio de fotos e vídeos que permitem uma triagem técnica. A análise é realizada por médicos veterinários em uma central de regulação, que define se o caso exige o deslocamento das equipes. A diretora Jane Karoline ressalta que o Samuvet é para urgência, emergência e resgate técnico. “Não atendemos em situações de recolhimento de animais abandonados, por exemplo. Por isso que é muito importante a triagem”, afirma Jane. “A gente recebe um fluxo muito grande de ligações, mas o que de fato se transforma em ocorrência é um número menor. Dar uma informação precisa evita que a gente mobilize uma equipe à toa e desperdice recurso”, explica.

Jane Karoline, médica veterinária e diretora de Parcerias e Projetos da Fauna (foto: João Castro/PBH/Divulgação)
Jane Karoline, médica veterinária e diretora de Parcerias e Projetos da Fauna (foto: João Castro/PBH/Divulgação)
Só em sua primeira semana em operação, o serviço recebeu 535 ligações. Desse total, cerca de 10% se transformaram em atendimentos efetivos %u2500 aproximadamente 49 ocorrências com deslocamento de ambulâncias. Para Jane, o número revela tanto a demanda quanto a necessidade de informação.

“A gente percebe que as pessoas ainda estão um pouco confusas sobre a finalidade do serviço. Chegam muitas demandas que não são do Samuvet, mas todas recebem orientação”, avalia a veterinária. “Esse também é um diferencial: quem faz essa triagem é um médico veterinário, que já consegue orientar, direcionar e até fazer uma espécie de telemedicina”, assinala.

Com mais de 30 profissionais envolvidos, seis ambulâncias e uma moto, o Samuvet realizou, nesses primeiros dias, desde resgates e socorros até cirurgias e internações %u2500 procedimentos que, na rede privada, poderiam custar valores elevados. Após o atendimento, os animais seguem fluxos distintos: aqueles que têm tutor, como a cachorrinha Lucy, são devolvidos depois de estabilizados; já os que não têm são encaminhados ao Centro de Controle de Zoonoses, onde seguem protocolos específicos, como o CED (Capturar, Esterilizar e Devolver).

A previsão inicial da prefeitura é de cerca de 85 atendimentos mensais, número que ainda deve ser ajustado conforme o serviço se consolida. “É uma demanda nova para a gente. A partir do momento que formos avaliando e fazendo balanços, outras providências podem ser tomadas”, informa a diretora de parcerias e projetos da fauna na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. “Mas o mais importante agora é reforçar o entendimento da população sobre quando acionar. Isso garante que a gente consiga atender, de fato, os casos mais graves”, reforça.

O Samuvet pode ser acionado pelo telefone (31) 2888-0000. O primeiro contato deve ser feito por ligação; só depois disso o envio de imagens é solicitado. Casos que não configuram urgência devem ser encaminhados ao atendimento regular do complexo público veterinário.

Números
 
Em uma semana, o SAMUVet realizou:
  • 28 socorros
  • 6 resgates 
  • 4 capturas
  • 9 recolhimentos
  • 2 atendimentos simples com liberação no local

Entre os animais atendidos, foram
  • 28 gatos 
  • 16 cães


Quando é urgência? E o que fazer com seu pet

Déborah Andrade, mestre em ciência Animal pela UFMG (foto: Arquivo pessoal )
Déborah Andrade, mestre em ciência Animal pela UFMG (foto: Arquivo pessoal )
Diferenciar o que é e o que não é um caso de urgência aparece hoje como uma das principais dificuldades do SamuVet, que vem recebendo um grande volume de acionamentos, mas nem sempre de casos que demandam o atendimento desse serviço.

Curiosamente, essa mesma dificuldade de enquadrar o tipo de assistência devida é enfrentada pelos tutores de pets em suas casas – e, nesses casos, já vale ligar o alerta diante de mudanças sutis de comportamento.

“Se o animal está mais quieto, não responde quando chamado, parou de se alimentar ou não levanta a cabeça como antes, esses são sinais iniciais de atenção”, explica a médica veterinária Déborah Andrade, mestre em Ciência Animal pela UFMG, especializada em anestesiologia e intensivismo pela PAV SP, pós-graduada em dor pelo Einstein SP e docente das universidades UNIBH e UNA. No extremo, ela detalha que a perda de consciência é sinal de um quadro crítico: “Esse é o último indício de uma emergência. Quando o paciente não responde mais, a situação já é gravíssima.”

Ela prossegue alertando que, diante de ocorrências como atropelamentos, a aparência pode enganar. Mesmo que o animal esteja andando, pode haver risco. “Nosso maior medo não são as fraturas, mas traumas internos. Traumatismo craniano, hemorragias por ruptura de órgãos ou até hérnia diafragmática, que compromete a respiração”, alerta. A recomendação, portanto, é não esperar: o animal deve ser avaliado o quanto antes, com exames como radiografia e ultrassom.

Em situações de primeiros socorros, Déborah informa que algumas medidas podem ajudar até a chegada ao atendimento veterinário. Em casos de dificuldade respiratória, a orientação é tentar facilitar a passagem de ar: “Levantar o pescoço, observar se há algo obstruindo a boca ou a garganta e, se possível, remover com cuidado”. 

Já em hemorragias externas, deve-se fazer o controle do sangramento. “Fazer um garrote (torniquete) no local pode ajudar a conter a perda de sangue até chegar ao hospital”, diz. Hemorragias internas, porém, não permitem intervenção caseira e exigem deslocamento imediato para atendimento.

Entre os erros mais comuns dos tutores, ela destaca dois: esperar demais e medicar por conta própria. “O tempo é crucial. Às vezes, a pessoa espera um, dois dias para ver se melhora, e quando chega à clínica já perdemos a janela de intervenção”, adverte Déborah, lembrando dos riscos da automedicação: “Cães e gatos não são iguais a humanos. Um remédio dado de forma errada pode piorar o quadro e colocar a vida do animal em risco”.

A orientação, portanto, é que, diante de qualquer sinal fora do habitual, especialmente após traumas ou com sintomas intensos, a melhor decisão é procurar atendimento veterinário o mais rápido possível.

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação