
Hoje, por outro lado, quem chega aos 50 tem, estatisticamente, mais tempo para gozar de novos amores – sejam eles pessoas, projetos, planos, passatempos. Conforme a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), afinal, nunca se viveu tanto no país, que, no ano passado, alcançou a marca de 76,6 anos de expectativa de vida. E esse incremento na longevidade, associado à redução das taxas de natalidade, já faz do Brasil a sexta nação com o maior número de idosos no mundo, segundo estimativas da ONU. No futuro, essa população deve crescer significativamente: conforme projeções nacionais, em 2070, 37,8% da população brasileira deve ser idosa.
Esse progressivo envelhecimento populacional, claro, traz consigo uma série de desafios – exigindo estratégias e adequações em relação a serviços ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à própria Previdência Social. Mas também inaugura novas formas de se viver esses anos a mais. É no bojo dessas novidades que surgem termos como o NOLT, sigla para New Older Living Trend, ou Nova Tendência de Vida Madura, que tenta abarcar formas ativas de viver após os 60.
A expressão é usada para designar uma maturidade mais dinâmica, substituindo a ideia de declínio pela noção de longevidade consciente. Envelhecer, nessa perspectiva, tem a ver com ocupar novos lugares e a abertura para novas formas de participação social, profissional e pessoal. Os exemplos são muitos, passando por pessoas idosas retornando às salas de aula em busca de novas graduações, reposicionando-se no mercado de trabalho, tornando-se empreendedoras e envolvendo-se ativamente na vida social e cultural.

A comunicadora e ativista pondera que há, de fato, uma transformação em curso – sustentada, sobretudo, pelo aumento da expectativa de vida. “Entendemos que uma pessoa de 60 terá no mínimo duas décadas pela frente. Ou seja, tem muita coisa para viver”, diz. Os dados confirmam: só na última edição do Enem, mais de 17 mil pessoas com 60 anos ou mais se inscreveram para fazer a prova e tentar a entrada em um curso universitário, um crescimento expressivo em relação a anos anteriores.
Novo amor e novos projetos aos 65
O desejo de seguir caminhando, traçando projetos, rotas e desbravando novos horizontes na velhice não está restrito ao universo profissional: dados do IBGE indicam que, desde 2018, por exemplo, o número de casamentos entre pessoas com mais de 60 anos cresceu 23,5%, chegando a quase 75 mil matrimônios celebrados nesta faixa etária em 2022, ano dos dados mais recentes.
Foi justamente na perigosa curva dos 65 que o ator e diretor Chico Aníbal e o ator e dramaturgo Luiz Hippert derraparam no amor. Amigos de décadas, eles começaram a namorar há pouco. Ao mesmo tempo, voltaram à sala de aula: são alunos de um curso livre de roteiro para curta-metragem, na Escola Livre de Artes Arena da Cultura, em Belo Horizonte. Planejam agora desenvolver um filme híbrido, entre ficção e documentário, sobre a experiência de envelhecer sendo homens gays.
“Eu acho que uma das grandes questões é que o ser humano está vivendo mais”, reflete Aníbal. “Nós estamos chegando a essa idade com saúde. E acho que nós somos a primeira geração que está na terceira idade pensando na quarta e quinta idade. Hoje, dos 60 até os 80, ainda dá para produzir muita coisa, porque a cabeça ainda está funcionando para um monte de coisa”, avalia.
Hippert, por sua vez, complementa, com mais cautela: “As pessoas de 60 hoje são bem diferentes das pessoas de mesma idade há 20 anos. Mas, quando você chega lá, percebe que muda. Não tem como dizer que ‘os 80 são os novos 60’. Os 60 são 60 mesmo. E você sente isso – pessoalmente e socialmente”, opina, mencionando o etarismo como uma experiência concreta: “Começam a te tratar diferente, explicar demais as coisas, te orientar muito”, enumera. Mas ele ressalta que, ainda assim, a disposição para o novo permanece.
No caso deles, por exemplo, o curso de roteiro está ligado a planos de futuro. “A gente não faz o curso apenas para ter o que fazer. Porque existe essa crença, de que idoso tem que fazer algo para passar o tempo. Fazemos porque acreditamos que isso vai acrescentar em trabalhos que realizamos, e é um passo na direção do audiovisual”, ressalta Hippert, acrescentando que a própria escolha do ambiente de aprendizagem pesa nessa equação: “É muito ruim você ir para um lugar que é ‘lugar de velho’, que tem aquela proposta de só ter uma atividade para dar uma ocupação. Aqui, a gente tem troca, diversidade, respeito. Isso faz diferença”.
Inquietude permanente

E essa inquietação, agora perto dos 80, permanece. Hoje, Lage divide a rotina entre Belo Horizonte e Ouro Preto, onde mantém um centro cultural dedicado à arte popular brasileira. “Eu não fico parado num lugar só. Ponto”, resume. Em BH, organiza a parte estrutural dos projetos; em Ouro Preto, executa as ações, cursos e festivais. Eventualmente, ainda se desloca para outras cidades – como Olinda, onde realizou recentemente o documentário “Olinda Sacra”. “Acredito que você pode ter raiz, mas a raiz serve para sua cultura, não para sua maneira de viver. Você leva sua cultura para onde for, mas tem que ir, tem que estar em movimento”, defende.
O projeto em Ouro Preto nasceu justamente em um momento de inflexão. “Achei que era hora de reduzir a carga e decidi transformar um sítio em um espaço cultural, resgatando a tradição da cerâmica Saramenha”, diz, fazendo referência a uma das primeiras cerâmicas vidradas do país, originária da região. “Eu fui pegando essas vivências, essa paixão pela arte popular brasileira, e transformando o espaço num centro de arte popular”, conta. Ali, além de preservar técnicas e saberes, ele promove encontros entre gerações de artesãos e fomenta a produção cultural local.
A pretensa redução da carga não se reflete na agenda ainda, que segue intensa. Tanto que, para conseguir citar tudo o que faz e planeja fazer, precisa acelerar a velocidade da fala – praticamente, uma antítese da ideia do idoso de fala arrastada. Para este ano, Lage já tem definidos três festivais principais no espaço: o “Piano e Canto”, previsto para maio; o “Arte e Movimento”, em julho; e o “Cordas do Brasil”, que deve acontecer em Ouro Preto e também ganhar uma edição em Olinda. Este último, segundo ele, é um dos projetos mais afetivos: reúne instrumentos de corda que ajudaram a moldar a música brasileira, como violão, viola, cavaquinho e bandolim. “A cabeça não para. Você vê uma coisa, já cria outra. É assim que funciona”, orgulha-se.
Contra a invisibilidade
A jornalista, produtora de conteúdo e escritora Roberta Zampetti também encara o processo de envelhecimento como uma possibilidade de continuidade e aprimoramento, ainda que exija ajustes de ritmo. “Eu não mudei da Roberta de 50, nem de 40. A minha cabeça é a mesma”, afirma, ao reconhecer que o corpo, por vezes, impõe novos limites, mas não interrompe o desejo de seguir realizando novos projetos e, sobretudo, aprendendo. Não por acaso, quem chega à sua casa logo se depara com uma estante de livros, muitos dos quais dedicados justamente ao tema do envelhecimento. Ela própria, aliás, tem o seu, cujo título é “Sou 60. Diário de uma jornalista em busca de respostas sobre o envelhecimento e a vida”. O volume foi lançado em 2017, dois anos após ela mergulhar de cabeça nos debates sobre a longevidade – o que faz dela uma das pioneiras nessas discussões em Minas Gerais.
Hoje, ela observa com ceticismo a proliferação de novos rótulos para definir o envelhecer. “Eu acho que o povo fica inventando moda, sinceramente. Não basta ‘terceira idade’ e os outros tantos eufemismos? Parece que existe um grande esforço só para maquiar o nome velhice, que a sociedade insiste em não aceitar. Mas se a gente vive a partir dos 60 anos a velhice, então é isso que somos: velhos. Eu sou velha. Velha e livre”, dispara ela ao comentar sobre a proliferação da expressão NOLT. Roberta acredita que o termo pouco acrescenta a um debate que, em sua essência, já deveria estar superado. “Desde quando eu comecei a falar de velhice, lá em 2015, eu já defendia que envelhecer é aprender. Pra quê criar mais um nome para dizer a mesma coisa?”, questiona.
Além disso, ela reforça que as velhices precisam ser tratadas no plural, porque são muito distintas entre si. É possível apontar, por exemplo, um recorte de gênero: “As mulheres se tornam invisíveis na velhice. Homem não. Homem é charmoso”, aponta. Foi justamente a percepção desse preconceito que a levou a mudar o rumo da própria carreira, ao completar 60 anos, quando, após 16 anos à frente do programa “Brasil das Gerais”, da Rede Minas, decidiu se dedicar com mais ênfase ao debate sobre o envelhecer. A virada de chave, curiosamente, veio de um comentário etarista que recebeu: “Encontrei um conhecido em um evento e ele disse que me conhecia desde que eu era ‘jovem’ e ‘bonita’. Claro que ele foi muito infeliz nessa fala. Mas aquilo me despertou e eu achei que esse debate precisava ser feito”, comenta, lembrando como fez do limão uma limonada.
Roberta conta que apresentou para a direção da Rede Minas o projeto de outro programa, o “Sou 60”, que surgia em um momento em que esse debate ainda era incipiente e termos hoje populares, como “60+”, sequer eram utilizados. Anos depois, o projeto migrou para o YouTube, onde a jornalista consolidou uma produção independente voltada à valorização da velhice. “Foi a melhor coisa que eu fiz”, celebra. “Hoje eu trabalho para mim e sem aquele compromisso de prazos.” Para seguir trabalhando, ela assume sozinha todas as etapas de produção: grava entrevistas, muitas vezes com três câmeras simultâneas, edita o material e publica os vídeos. Além disso, realiza palestras – a próxima marcada para 24 de abril, no Automóvel Clube, a convite do Rotary –, escreve, lê e pesquisa continuamente.
‘Não se pode colocar a pessoa idosa numa caixa e achar que todos serão iguais’
As histórias de Zampetti, Chico Aníbal, Luiz Hippert e Paulo Rogério Lage parecem encontrar muitos paralelos com o imaginário proposto pelo NOLT: pessoas que seguem ativas, criativas, abertas ao novo. Mas Natália Dornellas contemporiza: esse retrato não pode ser universalizado. “Num país cheio de desigualdades como o nosso, é preciso entender que sempre haverá várias velhices”, lembra. Ela cita diferenças concretas, como a expectativa de vida que pode variar em até 20 anos dentro de uma mesma cidade, dependendo da região. “Não se pode colocar a pessoa idosa numa caixa e achar que todos serão iguais”, ressalta.
As diferenças, aliás, são destacadas nos próprios relatos desses personagens, que reconhecem as limitações e necessidades de adaptação em suas rotinas. “Você fica mais doente, vai mais ao médico, tem mais remédio para tomar… E até os assuntos mudam. Hoje, a gente fala muito de alimentação, de sono, de atividade física, o que acho bom, porque mostra que estamos mais conscientes desse processo”, indica Hippert. Para Aníbal, essa convivência com a finitude aparece de forma ainda mais intensa por conta do seu trabalho em um projeto de palhaçaria em hospitais. Por isso, frequentemente, ele se vê diante de pacientes idosos, a maioria em condições mais delicadas do que a sua. “Vejo ali, na prática, que esse processo é muito desigual. É diferente para cada pessoa. Muitas vezes, estou tentando fazer rir alguém que é até mais novo que eu, mas que está mais vulnerável”, menciona.
No caso dos dois, há ainda uma camada adicional: a experiência de envelhecer sendo homens LGBTQIAPN . Uma vivência atravessada por histórias de invisibilidade, perdas e reinvenções. “Nós somos a primeira geração que está envelhecendo. Mais velhos que a gente tem poucos”, aponta Hippert, lembrando, entre outros fatores, o impacto da epidemia de HIV/Aids nos anos 1980 e 1990, que interrompeu trajetórias e reduziu a presença de referências mais antigas. Ele acrescenta que a consequência desse pioneirismo é uma velhice que, muitas vezes, se constrói sem modelos claros – e, não raro, sob o risco de novos apagamentos.
A consciência do tempo e a velhice como direito
Se, para o casal, o desafio passa também pela afirmação de identidades e afetos, para Paulo Rogério Lage as questões do envelhecer aparecem, sobretudo, em um necessário ajuste de ritmo. “Tem coisas que eu não vou fazer mais”, admite. Depois de décadas em turnês intensas, cruzando cidades e países, ele percebeu a necessidade de redefinir o modo de estar no mundo. “Chegou uma hora que eu senti necessidade de dar uma fixada”, conta ele, ainda que sem abrir mão do estar em movimento. “Eu optei por fazer o que é de extrema qualidade e que tem mais facilidade de realização”, explica, ao comentar a escolha por projetos culturais mais enxutos, viáveis dentro de uma nova lógica de trabalho.
Há, também, uma consciência sobre a própria idade: “Aos 77, você está mais perto de subir do que de ficar por aqui. Então, você tem que ter felicidade no que está fazendo. Depois dos 60, ficou muito claro para mim que eu ia fazer só o que eu gostasse”, assinala. Uma liberdade que, no entanto, não está ao alcance de todos – e que, como lembra Natália Dornellas, precisa ser pensada à luz das desigualdades. “O Brasil vive um processo de envelhecimento muito heterogêneo”, reforça ela. “Por mais que tenhamos pessoas vivendo muito bem aos 90 ou 100 anos, é preciso entender que o acesso aos privilégios é determinante”, completa a ativista, que chama atenção para o risco de se transformar a ideia de envelhecimento ativo em uma nova forma de cobrança – ou, pior, em um ideal inalcançável para grande parte da população.
Os fatores econômicos, defende, não podem estar ao largo desse debate. Podemos lembrar, por exemplo, que, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, mais da metade das pessoas com mais de 60 anos são responsáveis pelo sustento de suas famílias. Nesses casos, continuar trabalhando não é exatamente uma escolha, mas uma necessidade. “Falar de envelhecimento ativo exige reconhecer essas desigualdades. Caso contrário, a ideia de longevidade saudável vira privilégio de poucos”, crava Dornellas, concluindo que mudanças precisam ser implementadas para garantir aos brasileiros o direito de envelhecer com dignidade. “Dentro de poucos anos, teremos mais pessoas com 60 anos do que crianças no Brasil. Não tem como ignorar isso. A sociedade vai ter que se reorganizar.”
Já Roberta Zampetti. ao falar sobre o envelhecimento contemporâneo, defende que há, de fato, uma mudança geracional em curso. “Os velhos hoje estão muito diferentes dos velhos de décadas atrás. Eu sou completamente conectada. Fiz questão de estudar tecnologia”, assinala, acrescentando que a velhice pode ser, paradoxalmente, a fase mais aberta ao novo. “Eu acho que a velhice tem muito mais coisa nova do que qualquer etapa da vida. O que eu descubro de possibilidades… O velho, pela bagagem que possui, pode ser muito criativo – mas, infelizmente, tem baixa autoestima e se retrai”, opina.
Ao mesmo tempo, ela também ecoa o debate de como aspectos sociais interferem na forma de se viver a velhice. “O que conta mais para a sua longevidade? O seu CEP ou o seu DNA?”, questiona. Ela mesma responde: “É o CEP”. Ancorada por pesquisas, Roberta defende que fatores como acesso a saneamento, saúde, segurança e qualidade de vida têm um peso muito maior do que a herança genética para a longevidade.
Geriatra lança livro sobre decisões que impactam a longevidade

Essa mudança de perspectiva, no entanto, vem acompanhada de um cuidado: o de não transformar a ideia de envelhecimento ativo em uma nova forma de cobrança. “Não significa que todo idoso precisa ser produtivo o tempo todo ou tentar se manter jovem a qualquer custo”, pondera a especialista, insistindo que a centralidade deve estar na autonomia – entendida não apenas como independência física, mas como a capacidade de decidir e conduzir a própria vida. Nesse sentido, ela distingue uma velhice simplesmente mais longa de uma velhice efetivamente ativa e funcional. “Não é sobre ter exames bons, apenas. É sobre continuar vivendo com intenção. Ter motivos, grandes ou pequenos, para levantar todos os dias”, defende.
Ao mesmo tempo, Mônica chama atenção para o peso que o imaginário social ainda exerce sobre o envelhecimento, em que há uma quase automática associação entre velhice, fragilidade e dependência – o que molda comportamentos e expectativas muitas vezes antes mesmo que essas limitações existam de fato. “Muita gente ainda enxerga a velhice como algo a ser combatido, quase como uma doença”, diz, ao indicar que há uma geração inteira que, sem referências anteriores de envelhecimento bem-sucedido, está “reescrevendo essa história” na prática. Não é raro, relata, ouvir de pacientes a sensação de não se reconhecerem na própria idade – fenômeno que reconhece como um sintoma dessa transformação.
Mas qualquer discussão sobre longevidade ativa, alerta a geriatra, precisa considerar idiossincrasias do país em que se envelhece. Em um Brasil marcado por contrastes sociais, diz, envelhecer pode significar experiências radicalmente distintas. “Na prática, o idoso mais vulnerável enfrenta o envelhecimento somado à falta de recursos, de apoio e de estrutura”, explica, lembrando ainda que, nesse contexto, a responsabilidade pelo cuidado recai, em grande medida, sobre a família. Daí a importância de políticas públicas e redes de apoio que sustentem esse processo. “O envelhecimento digno não pode ser uma responsabilidade individual. Ele precisa ser coletivo”, estabelece.
Retomada aos 70
Essa consciência aparece com recorrência nas reflexões de Rubens Ferreira Filho, de 73 anos – ele próprio, um exemplo singular das possibilidades abertas pelos anos a mais que se vive na contemporaneidade. Morador de Lagoa Santa, ele decidiu prestar vestibular para medicina logo após se aposentar, em 2022, depois de mais de cinco décadas trabalhando em uma multinacional da área da mineração. “Se eu ficasse da noite para o dia em casa, sem nada para fazer, eu ia entrar em parafuso”, diz. A aprovação veio como surpresa – “deu zebra”, brinca – e, desde então, ele mergulhou em uma rotina intensa de estudos, hoje já no sétimo período do curso.

Por trás da decisão de iniciar aos 70 uma nova graduação há uma história antiga, que ele reconstitui com memória fresca: “Quando jovem, cheguei a sonhar com a medicina e fui aprovado para o curso, mas abri mão por causa das condições financeiras da minha família. Eu era filho de um carroceiro e precisava trabalhar para ajudar em casa. Na época, meu pai ficou muito contrariado. Disse que era o sonho dele ver um filho formado em medicina e eu retruquei, dizendo que estava abrindo mão naquele momento, mas não estava desistindo”, recorda. Décadas depois, já aposentado, decidiu que era hora de cumprir a promessa – e, se pensa em desistir, é na memória dessa conversa que encontra forças para continuar.
A decisão, aliás, não passou sem questionamentos. “Claro que tem quem pergunte se é hora para isso, se não é melhor aproveitar a vida”, reconhece, ponderando que, apesar das provocações, encontrou também apoio. Um dos mais marcantes é o da neta, uma criança que demonstra grande orgulho pelo avô “estar na faculdade” – hoje, quando está com ele, a menina costuma brincar de estudar.
Carência e solidão
Curiosamente, é na geriatria – a mesma área de atuação de Mônica Campanha – que Rubens Filho começa a se reconhecer. A vivência nas unidades básicas de saúde, parte da formação médica, aproximou-o das demandas concretas da população idosa, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade. “Assusta a carência. A solidão”, relata. Em um dos projetos desenvolvidos com colegas, ele participou de encontros com idosos da comunidade, buscando criar espaços de escuta e convivência – experiência que revelou a ele o quanto muitos se sentem invisíveis, e o quanto pequenas intervenções podem reativar sentidos de vida.
Nas rodas de conversa ou nos atendimentos que realiza, Rubens costuma provocar, à sua maneira, o debate sobre envelhecimento: “Pergunto eles se sabem a diferença entre idoso e velho e, depois, explico: o idoso é aquele que continua sonhando e, o velho, aquele que apenas dorme”.
O estudante, claro, não ignora as limitações impostas pelo tempo. A defesa que faz, porém, vai no sentido de preservar o desejo como motor da existência – o que, muitas vezes, exige longas conversas com familiares, “que custam a entender que seus velhinhos também têm sonhos e que, se os seus sonhos desaparecem, você desaparece também”, diz. Ao mesmo tempo, reconhece a necessidade de ajustes. “Mas uma coisa é o ajuste, outra é o abandono. Por exemplo, entendo que eu não posso mais subir no telhado da minha casa para alguma manutenção, mas isso não significa que eu não possa chamar alguém para fazer isso e ficar lá de baixo orientando”, defende. Para ele, afinal, envelhecer ativamente não significa negar os limites, mas negociar com eles.