
Entre os primeiros movimentos da nova gestão está a articulação para a criação de um novo campus em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte – o primeiro após 15 anos, desde a expansão na cidade de Tiradentes. O projeto, discutido em Brasília com o Ministério da Educação, prevê cursos nas áreas de engenharia, tecnologia e saúde e simboliza uma aposta na interiorização qualificada e na conexão com demandas contemporâneas, como ciência de dados e inteligência artificial.
- QUEM É: Alessandro Fernandes Moreira, 57 anos
- ORIGEM: Guaraciaba (MG)
- TRAJETÓRIA: Vice-reitor nas duas gestões anteriores (2022-2026 e 2018-2022). Foi diretor da Escola de Engenharia da UFMG (2014-2018) e vice-diretor da mesma unidade (2010-2014). É professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, onde ingressou em 1993. Formado em engenharia elétrica pela UFMG (1991), tem mestrado em engenharia elétrica, também pela UFMG (1993), e doutorado em engenharia elétrica pela University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos (2002)
“Não se trata apenas de garantir o acesso ao ensino superior. Uma democratização de fato exige criar condições para que a universidade não seja um território inóspito para quem chega”, afirma o reitor, sintetizando uma das ideias centrais de sua gestão. O princípio de que “inclusão sem permanência não se sustenta” orienta uma agenda que articula assistência estudantil, saúde mental, inovação pedagógica e valorização das relações humanas.
Ao longo da entrevista, Moreira defende a universidade pública como espaço estratégico para o país, capaz de equilibrar a produção de conhecimento de longo prazo com respostas imediatas à sociedade. Também aborda os desafios impostos pela inteligência artificial, a necessidade de fortalecer a extensão universitária e o papel da instituição na reconstrução da confiança pública na ciência. “A universidade precisa estar cada vez mais próxima e compreensível para a sociedade, mostrando, de forma concreta, como o conhecimento produzido aqui impacta a vida das pessoas”, diz.
Entre preocupações com desigualdade, desinformação e fragilização institucional, o reitor aposta na juventude e na capacidade coletiva da universidade como motores de transformação. “O que nos move é a capacidade de agir. Na UFMG, seguimos ‘esperançando’, como nos ensinou Paulo Freire”, resume.
Ao assumir a reitoria da UFMG, o que tem passado pela sua cabeça e que universidade o senhor imagina entregar ao fim do mandato?
Assumir a reitoria da UFMG é a maior honra e responsabilidade. Encontro uma universidade fortalecida, que ampliou seu impacto acadêmico, científico e social, reafirmando seu compromisso com a democracia e o interesse público. O desafio é avançar. A UFMG é uma jovem centenária, inovadora e capaz de transformar conhecimento em soluções. Trabalhamos para consolidar pilares que sustentam “pontes para a vida” através do ensino, pesquisa e extensão. Reconheço uma UFMG que ampliou seu alcance sem perder a essência: excelência, referência social e conexão com os desafios do tempo.
Quais são as prioridades da sua gestão e o legado que busca construir?
Nossas prioridades são inovar, incluir e cuidar. O foco é fortalecer políticas de inclusão e permanência qualificada, garantindo que a universidade não seja inóspita para quem chega por ações afirmativas. Isso exige inovar em práticas pedagógicas e produção de conhecimento. O cuidado, amplo, é essencial. Fortaleceremos o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação, além de políticas de saúde mental e acessibilidade. O legado é uma UFMG mais inclusiva, inovadora, comprometida com a sociedade e que acolha a pluralidade do Brasil.
Qual a função da universidade pública no Brasil e como a UFMG dialoga com a sociedade?
A universidade pública é estratégica para produzir conhecimento, formar cidadãos críticos e contribuir para o desenvolvimento do país, reafirmando o valor da ciência e da democracia. Precisamos sofisticar o diálogo entre ciência de ponta e de base, trazendo-a para o cotidiano das pessoas. É fundamental ampliar parcerias com a educação básica e tornar a UFMG mais acessível e presente, mostrando o impacto do conhecimento na vida da população.
Como equilibrar a cobrança por impacto imediato com a produção de conhecimento de longo prazo, e como enfrentar discursos anti-universidade?
A universidade equilibra respostas imediatas e produção de conhecimento de longo prazo, que são complementares. É legítimo que a sociedade espere impacto, mas soluções concretas surgem de pesquisas sem aplicação imediata. Abrir mão do longo prazo compromete o futuro. Discursos que associam a universidade à desordem devem ser enfrentados com firmeza, pois ela é um espaço plural e crítico, essencial para a democracia. Preocupa a deslegitimação e a desinformação. As universidades devem reafirmar seus princípios e ampliar o diálogo com a sociedade, tornando visível seu papel e impacto para fortalecer a confiança pública.
Quais os desafios de financiamento e autonomia para as universidades federais e como deve ser a relação com o poder público?
Restrição orçamentária é um desafio central, impactando manutenção e planejamento. É crucial assegurar previsibilidade e estabilidade de financiamento. As universidades públicas são patrimônio do Estado brasileiro. Preservar a autonomia universitária é fundamental para contribuir criticamente com políticas públicas e o desenvolvimento nacional. Devemos manter uma relação cooperativa com o poder público, sem abrir mão da autonomia e do compromisso com o interesse público, independente do cenário político.
Como atualizar currículos e práticas pedagógicas para as demandas contemporâneas e o mundo do trabalho em transformação?
É essencial inovar nas práticas pedagógicas. Na UFMG, isso se traduz em currículos flexíveis e interdisciplinares, que dialoguem com temas contemporâneos. Formações transversais, integração com a extensão e percursos formativos abertos são cruciais. Incorporar novas metodologias de ensino, com uso crítico de tecnologias digitais e práticas ativas, colocando o estudante no centro. O desafio atual é integrar a inteligência artificial de forma responsável. A universidade deve pensar o novo, considerando o atual e o acúmulo de saberes para uma formação atenta às demandas da sociedade.
Que caminhos o senhor vê para ampliar e fortalecer a extensão universitária na UFMG?
A extensão universitária é central para a relação universidade-sociedade, sendo um eixo estruturante na UFMG, indissociável do ensino e pesquisa. Com forte impacto social, a aprovação das Normas Gerais de Extensão em 2024 institucionalizou a área. Este instrumento guiará ações para melhor diálogo social, promoção dos direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
A chegada da inteligência artificial impõe novos desafios ao ensino e à produção de conhecimento. Como a universidade está se preparando para lidar com essas ferramentas e qual seu papel no debate público sobre o tema?
A inteligência artificial é uma das transformações mais profundas do nosso tempo, e a UFMG tem tratado o tema de forma estruturada, com a criação da Comissão Permanente de Inteligência Artificial. A comissão fomenta um debate profundo sobre os impactos da IA e orienta a universidade na construção de respostas institucionais consistentes. O caminho não é proibir, mas incorporar criticamente, revisando práticas pedagógicas e desenvolvendo novas formas de avaliação. A IA não deve ser encarada nem como ameaça nem como grande aliada, pois é apenas uma ferramenta. Seus efeitos dependem de como a sociedade decide desenvolvê-la e utilizá-la. O papel da universidade é estratégico: produzir conhecimento com visão crítica, formar pessoas para usar a IA com responsabilidade e contribuir para o debate público qualificado, oferecendo evidências científicas para decisões informadas e orientação ética para o desenvolvimento e regulação da IA.
O senhor afirmou que ‘inclusão sem permanência não se sustenta’. Como transformar esse princípio em políticas concretas, especialmente considerando as mudanças no perfil dos estudantes e os desafios de saúde mental?
Inclusão sem permanência não se sustenta significa uma mudança de chave na compreensão dessa agenda. Não é apenas garantir acesso a auxílios financeiros, mas consolidar uma política institucional estruturante, orientada por equidade, justiça social e garantia de direitos. A permanência qualificada é resultado de uma ação articulada que envolve saúde mental, direitos humanos, acessibilidade e apoio pedagógico. Os gargalos incluem a necessidade de ampliar e dar previsibilidade aos recursos de assistência estudantil e integrar as políticas universitárias. A UFMG tem avançado em uma política de saúde mental baseada no acolhimento e escuta. Os desafios são lidar com a diversidade estudantil, a pressão acadêmica e a insegurança, e construir uma cultura mais solidária e humanizada.
A Universidade Federal de Minas Gerais aparece com frequência em rankings internacionais e mantém uma posição de destaque. Como o senhor interpreta esse reconhecimento? E, ao mesmo tempo, quais são os desafios para sustentar ou até elevar esse padrão de excelência em um contexto de restrições orçamentárias?
O reconhecimento da UFMG em rankings nacionais e internacionais é motivo de muito orgulho, mas sempre interpretamos esses rankings com equilíbrio e cuidado. Ele reflete o resultado de um trabalho consistente e de longo prazo, construído pela dedicação da comunidade acadêmica e esse esforço merece tal reconhecimento. Ele reflete, obviamente, a solidez da nossa produção científica, a qualidade da formação que oferecemos e o compromisso permanente com a sociedade. Contudo, nenhum ranking consegue alcançar toda a potência de uma universidade pública como a UFMG, em todas as suas frentes de atuação e dimensões, que envolve todos os desafios que tratamos até aqui, como os relacionados à inclusão, a uma formação cidadã, aos impactos sociais e nosso compromisso com o desenvolvimento do país. Não é fácil sustentar, quiçá elevar esse padrão de excelência, em um contexto de restrições orçamentárias. Por isso, precisamos defender a previsibilidade orçamentária das universidades como condição essencial para garantir a continuidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão com qualidade e fortalecer as estratégias institucionais, a diversidade das áreas do conhecimento, o equilíbrio entre ciência básica e aplicada, e a autonomia universitária.
Ao olhar para o futuro, que papel o senhor imagina para a UFMG no cenário internacional? E, mais amplamente, como o senhor acha que será a universidade no futuro?
Ao olhar para o futuro, imagino a UFMG como uma universidade cada vez mais internacionalizada, mas profundamente enraizada em sua responsabilidade local, regional e nacional. Nosso desafio ao ampliar nossa presença em redes globais é fazê-lo a partir de uma identidade própria, como uma universidade pública do Sul Global, comprometida com a redução de desigualdades, especialmente as que marcam nosso país e a nossa América Latina, a partir da produção de conhecimento relevante e da defesa da democracia. Nesse cenário, entendo que as universidades ocupam um importante papel como atores políticos no plano internacional. Não no sentido partidário, mas como instituições que influenciam agendas globais, participam da formulação de políticas públicas, contribuem para a cooperação entre países e atuam em temas estratégicos como sustentabilidade, saúde, tecnologia e direitos humanos. Portanto, vejo a UFMG do futuro como uma universidade que combina excelência acadêmica, inovação, inclusão e compromisso público ao mesmo tempo em que se afirma como um ator relevante no cenário internacional, capaz de construir pontes entre países e contribuir para enfrentar desafios globais com base na ciência e na cooperação.
Saindo um pouco do plano institucional: que experiências da sua trajetória mais moldaram sua visão de educação? O que, para o senhor, define uma boa universidade? E, para terminar, olhando para o Brasil de hoje: o que mais preocupa o senhor e o que ainda sustenta alguma esperança?
Minha trajetória na universidade, desde estudante do interior a reitor, moldou profundamente minha visão de educação. Ensinar, para mim, é uma relação de cuidado e trocas constantes, onde o aprendizado flui em ambas as direções. Acredito que uma boa universidade se define pela sua capacidade de cuidar das pessoas que a constituem – estudantes, técnicos e docentes – pois é na força e na dedicação dessa comunidade que reside o verdadeiro poder da UFMG. Preocupa-me profundamente a persistência da desigualdade econômica e social no Brasil, o impacto corrosivo da desinformação e o enfraquecimento da confiança nas instituições públicas, que são pilares da nossa democracia. Contudo, mantenho um otimismo inabalável e vejo uma imensa esperança nas universidades públicas brasileiras e, sobretudo, na juventude que as habita. O que nos impulsiona é uma esperança ativa, que não se contenta em esperar passivamente, mas que se traduz em ação concreta, em compromisso inabalável e em trabalho coletivo incansável para transformar a realidade.