
Solução buscada corriqueiramente e vendida livremente, sem a necessidade de receitas médicas, o paracetamol é responsável por mais overdoses farmacêuticas do que qualquer outro medicamento no mundo, principalmente devido à ampla disponibilidade do fármaco e à percepção comum de sua segurança. O remédio, também conhecido como N -acetil-para-aminofenol, funciona como um antipirético e analgésico com um mecanismo distinto dos anti-inflamatórios não esteroides típicos.
O grande problema é o uso indiscriminado. Ele pode desencadear um quadro grave e silencioso de lesão hepática — e, em casos extremos, levar à morte em poucos dias. O remédio está hoje no centro de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que busca entender, em nível celular, como o organismo reage à intoxicação e por que, em alguns casos, o desfecho é tão rápido e severo. O estudo foi premiado no 18º Encontro Internacional da Sociedade Europeia do Cálcio (ECS), realizado em Doha, no Qatar, um dos principais eventos científicos da área.
Coordenado pela professora Maria de Fátima Leite, docente titular do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG e integrante do INCT Hepatologia 360º, o trabalho investiga os mecanismos da lesão hepática causada pelo uso excessivo de paracetamol, com foco na resposta do sistema imunológico. “O paracetamol é metabolizado no fígado e, nesse processo, gera uma substância tóxica. É esse composto que provoca o dano às células hepáticas”, explicou a pesquisadora à Encontro.
A partir daí, o organismo entra em um processo de resposta que ainda não é totalmente compreendido. “Quando ocorre uma lesão, as células do sistema imune vão até o local. Elas podem ajudar a reparar o dano ou, dependendo da quantidade e do tempo de permanência, podem agravar o quadro”, afirma. O estudo busca justamente entender esse mecanismo: como essas células são recrutadas, como se movimentam e qual papel desempenham na evolução da lesão.

Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, o tema já é tratado como um problema relevante de saúde pública global. Dados levantados pelo próprio grupo, com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, mostram que, apenas em 2023, Minas Gerais registrou cerca de 450 internações por intoxicação por paracetamol e uma média de duas a três mortes por dia associadas ao problema . “É um número muito alto, especialmente quando pensamos que se trata de uma intoxicação evitável”, alerta.
Segundo a professora, esse é um ponto central. “O paracetamol é um dos principais causadores de intoxicação medicamentosa, mas é evitável. Com informação e uso adequado, esses casos poderiam ser reduzidos”, afirma. O risco aumenta em situações comuns, como automedicação, uso combinado de diferentes remédios que contêm a mesma substância ou em pacientes com doenças hepáticas prévias, desnutrição ou consumo frequente de álcool.
O desafio é agravado pela dificuldade de identificar precocemente a intoxicação. Nos estágios iniciais, os sintomas são inespecíficos — náusea, mal-estar, palidez — e podem ser confundidos com outras condições. “Quando evolui, aí sim aparecem sinais mais graves, como dor abdominal intensa e alteração das enzimas hepáticas. Mas, nesse ponto, o quadro já pode estar avançado”, explica.
O tempo também é um fator crítico. Hoje, o principal tratamento disponível é a N-acetilcisteína, que atua neutralizando a substância tóxica gerada no fígado. No entanto, sua eficácia depende de uma janela terapêutica curta. “Estamos falando de, no máximo, oito a dez horas para iniciar o tratamento com boa chance de reversão. Depois disso, o risco de evolução para um quadro grave aumenta muito”, diz.
É justamente nesse cenário que a pesquisa ganha relevância. Ao entender melhor os mecanismos envolvidos na lesão, os cientistas esperam abrir caminho para novas estratégias — não necessariamente um novo medicamento, mas formas de ampliar essa janela de tratamento ou potencializar terapias já existentes. “Quando a gente compreende o mecanismo, fica mais fácil propor intervenções. Às vezes, pode ser reposicionar um fármaco que já existe ou associar tratamentos”, afirma.
Autora da dissertação vinculada ao projeto, a mestranda Bárbara Fidelix Santana destaca o impacto do reconhecimento internacional. “É um trabalho construído com muito rigor científico e que pode gerar avanços importantes. A expectativa é contribuir para o desenvolvimento de estratégias que evitem a progressão das lesões hepáticas e ajudem a salvar vidas”, afirma .
Nos casos mais graves, a evolução pode ser rápida e dramática. A falência hepática pode levar ao acúmulo de substâncias tóxicas no organismo, afetando inclusive o cérebro — um quadro conhecido como encefalopatia hepática. “Quando chega a esse estágio, a situação é extremamente crítica. Muitas vezes, a única alternativa é o transplante do fígado, que nem sempre acontece a tempo”, explica.
Diante desse cenário, o principal alerta dos pesquisadores é direto: evitar a automedicação e buscar orientação profissional. “Toda farmácia tem um farmacêutico capacitado para orientar sobre dose, intervalo e interação entre medicamentos. As pessoas precisam usar esse recurso”, afirma. Outro cuidado essencial é verificar a composição dos remédios. “Muitas vezes, a pessoa toma dois medicamentos diferentes sem saber que ambos têm paracetamol, o que pode levar a uma superdosagem acidental.”
A mensagem, segundo a pesquisadora, não é de pânico, mas de conscientização. “Não é para deixar de usar o medicamento quando necessário, mas para usar com segurança. Informação é o que permite prevenir”, resume.
O risco associado ao uso indiscriminado de paracetamol já é monitorado por autoridades sanitárias no Brasil e no exterior e não é recente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem alertas formais sobre o tema e classifica o uso incorreto do medicamento como potencialmente grave. “O uso indiscriminado de paracetamol pode levar a eventos adversos graves, incluindo hepatite medicamentosa e morte”, destaca o órgão.
A agência reforça que o problema está menos no medicamento em si e mais na forma como ele é utilizado. Em seus comunicados, a Anvisa orienta que o uso acima da dose recomendada ou por períodos prolongados pode causar lesões hepáticas graves, especialmente em contextos de automedicação ou associação com outros medicamentos que também contenham a substância.
O alerta é semelhante ao de entidades internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências regulatórias como a FDA (Estados Unidos) apontam o paracetamol como uma das principais causas de insuficiência hepática aguda em diversos países, justamente por ser amplamente disponível e, muitas vezes, utilizado sem orientação adequada. Em relatórios e guias clínicos, essas instituições destacam que o risco está diretamente ligado ao excesso — intencional ou não — e à falta de informação sobre a presença da substância em diferentes medicamentos
Atenção aos riscos!
Veja como o paracetamol age no fígado
Uso normal (dose correta)
O medicamento é metabolizado no fígado
A maior parte é eliminada de forma segura
Uma pequena parte vira uma substância tóxica (NAPQI)
Defesa do organismo
- O fígado produz uma substância protetora (glutationa)
- Ela neutraliza o composto tóxico
- O organismo elimina sem causar danos
Quando há excesso (overdose)
- Produção elevada da substância tóxica
- A “defesa natural” do fígado não dá conta
- O composto tóxico começa a destruir as células hepáticas
Evolução da intoxicação
- Fase inicial: náusea, mal-estar, sintomas inespecíficos
- 24h a 72h: dor abdominal, alteração do fígado
- Casos graves: falência hepática, encefalopatia e risco de morte
Como evitar intoxicação
- Não ultrapassar a dose indicada na bula
- Evitar tomar dois medicamentos com paracetamol ao mesmo tempo
- Respeitar o intervalo entre as doses
- Evitar uso prolongado sem orientação médica
- Redobrar o cuidado em caso de consumo de álcool
- Procurar orientação de farmacêutico ou médico
- Atenção especial para crianças, idosos e pessoas com doença hepática
Tire suas dúvidas no serviço de informações sobre medicamentos da UFMG no Instagram: @cemedufmg