
- QUEM É: Wilson Brumer, 78 anos
- ORIGEM: Belo Horizonte (MG)
- CARREIRA: Formado em administração de empresas pela Fumec. Foi CEO da Vale, Aperam e Usiminas, entre outras empresas. Entre 2003 e 2007, comandou a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais. É cônsul honorário do Japão em Belo Horizonte. Desde 1º de fevereiro preside o Instituto Cultural Filarmônica.
Encontro - Por que, depois de 18 anos, o Instituto Filarmônica resolveu que era hora de trocar seu comando?
Wilson Brumer - Sempre que tenho a oportunidade, eu gosto de elogiar o trabalho do meu antecessor, o Diomar Silveira, que estava aqui desde a fundação do instituto. Nesse período, ele enfrentou problemas de várias naturezas, enfrentou pandemia, enfrentou discussões enormes… Eu também digo que sem ele dificilmente nós teríamos chegado aonde chegamos. E meu grande desafio é entregar para quem me suceder algo ainda melhor do que o que eu recebi dele. Essa é a filosofia de vida que eu sempre carrego na minha vida profissional. Como o Diomar já demonstrava um certo cansaço, que é natural depois de tanto tempo, houve uma discussão no conselho de como fazer essa transição a mais tranquila possível, a mais harmônica possível, reconhecendo todo o trabalho que ele fez. E o conselho então, por meio do seu presidente, Paulo Paiva, me perguntou se eu gostaria de assumir esse desafio. Eu confesso que não estava nem imaginando isso, nessa altura da vida, apesar de continuar ativo. É um desafio novo, mas no fundo estou fazendo o que sempre fiz. Estou gerindo pessoas.
E tem sentido alguma diferença entre as pessoas com as quais lidava nas empresas pelas quais passou e aqui no instituto, onde boa parte são músicos?
Não sinto diferença nenhuma. Eu tenho muito orgulho de dizer que o meu primeiro trabalho, o meu primeiro emprego, foi em um posto de gasolina. Lá, você tinha o dono do carro, que à época era chamado de doutor; tinha os frentistas, que era o pessoal de mais baixa renda; e o dono do posto. Depois, fui trabalhar no escritório de uma revenda de automóveis, em que lidava do mecânico ao proprietário da empresa. Aí vou para uma Vale. Novamente, lidar com pessoas. Então, cada empresa tem a sua peculiaridade e não vejo nenhum grande desafio de tratar de novo com pessoas.
Além de sua passagem pelo setor privado, o senhor foi secretário de Desenvolvimento de Minas entre 2003 e 2007. Como a experiência com o Estado pode ajudá-lo agora, ao gerir o Instituto Filarmônica?
Quando eu aceitei o convite para ser secretário de Estado, também nunca tinha passado por essa experiência. As pessoas perguntavam: “Qual a diferença entre gerir uma empresa privada e uma pública?”. Além da secretaria, você tinha no organograma as empresas do estado, num modelo que permanece até hoje. Acabou que não senti nenhuma dificuldade. Na época, eu combinei com o governador [Aécio Neves] que, se eu pudesse contribuir com alguma coisa, era exatamente trazer os conceitos do setor privado para o governo. E, modéstia à parte, acho que foi um trabalho no qual eu aprendi muito. Saímos mais cidadãos quando saímos do governo. E tenho certeza de que as empresas que foram geridas melhoraram muito. Quando começamos, a Cemig, por exemplo, tinha valor de mercado de R$ 4 bilhões. Depois de quatro anos, R$ 20 bilhões. Ela continuou se valorizando depois, mas só nessa época foi uma valorização de cinco vezes, graças a governança, mais transparência, melhoria da comunicação. Enfim, no fundo, eu costumo dizer que gerir nada mais é do que implantar o óbvio. E às vezes é difícil implantar o óbvio. Mas nada mais do que isso.
E qual é a sua principal missão aqui na Filarmônica?
Nós temos dois pontos, vamos chamar assim, de foco. Primeiro, governança. Esse é um tema constante em qualquer lugar que eu passo. Eu costumo dizer que o que eu faço hoje tem que ser melhor do que o que eu fiz ontem. E amanhã terá de ser melhor do que estou fazendo hoje. É um processo contínuo de aprimoramento da governança. O que é que seria isso? Trazer o conselho mais próximo da gestão administrativa. Eu sempre insisto que conselhos de administração e a área executiva têm de estar muito próximos. Eu não conheço histórias de empresas, de organizações, em que há um distanciamento. Suas funções devem ser vistas como complementares e não opostas. Nesse sentido, já criamos comitês que vão aproximar mais o conselho da área de gestão, do dia a dia. São comitês ligados a pessoas, a melhorias da governança e à sucessão. Todos nós temos a obrigação de criar sucessores. Eu uso uma frase há tantos anos que nem sei se é mais minha: “Competência não tem medo de competência”. Você tem de se cercar de pessoas que são melhores do que você, que são mais competentes do que você. Outro grande desafio é criar uma sustentabilidade financeira. Aqui é uma OS, uma organização social, que é uma forma de PPP [parceria público privada]. Nós temos aqui uma participação do Estado e ao mesmo tempo temos de procurar o setor privado. Esse é o grande desafio de curto prazo. Eu tenho procurado ampliar mais o número de eventuais patrocinadores. Por que isso? Para não ficarmos tão dependentes de um tipo de governo, de uma ideologia. No mundo todo, o setor de cultura é uma junção de Estado e setor privado. E se existe o risco do próprio Estado, existe o risco do setor privado. Se hoje uma empresa está em determinada situação, amanhã pode estar em outra. A empresa também muda sua estratégia, sua filosofia.
E a médio e longo prazos?
Já aprovamos no conselho, e eu quero ver se lançamos nos próximos meses, um endowment, que é um fundo patrimonial. Você procura um mecenas, vamos chamar assim, na área de cultura, e esse fundo patrimonial só pode usar a rentabilidade dele para aquele uso especial, no nosso caso, para sustentar o instituto. Será fácil? Não. Se fosse fácil alguém já tinha feito, né? Será fácil em Minas Gerais? Não. Será fácil no Brasil? Não. Mas vamos procurar as relações que tivermos para tentar montar isso, sabendo que é um processo de médio e longo prazo. Onde isso acontece? Para darmos um exemplo, é mais comum nas áreas de saúde e educação, até porque tem mais, eu diria, apelo. Na área de cultura, o Masp [Museu de Arte de São Paulo] já implantou o dele. Estou percebendo que outros órgãos de cultura estão pensando a mesma coisa. Mas, de novo, temos de encarar isso como um processo de médio e longo prazo. Aliado a isso, mais na linha do curto prazo, nós temos vários movimentos, como os Amigos da Filarmônica. São pessoas que gostam de vir aqui e conseguem abater o valor do Imposto de Renda. Muitas pessoas pensam que é uma doação, mas na verdade é uma transferência daquilo que ele teria de pagar de imposto, para aquele projeto que ele acha interessante. Seguindo a mesma linha vamos implantar aqui as Amigas da Filarmônica. Nós temos os patrocinadores, que são empresas maiores, mas temos a intenção também de trazer as médias e pequenas empresas Amigas da Filarmônica. Aquelas que têm lucro real, certamente podem fazer disso como uma forma de abatimento do seu imposto. Mas a grande vantagem que eu vejo, além do aspecto financeiro, é atrair novos públicos aqui para a nossa sala, para a nossa casa e certamente fazendo da música um fator de inserção social.
O Diomar havia dito que 2026 seria um ano chave para essa questão orçamentária, de captação de recursos. O senhor enxerga isso também?
O ano de 2026 já está resolvido. Eu tenho uma filosofia de estar sempre olhando um ano, pelo menos, à frente. Estou começando a trabalhar pensando em 2027.
Quanto a Filarmônica custa por ano?
Em torno de R$ 55 milhões.
E desse valor, qual a parcela paga pelo governo do estado?
Mais ou menos 35%. O restante vem de uma somatória de coisas. São os patrocinadores, a bilheteria, os assinantes… A vantagem dos assinantes é que você tem uma receita recorrente. Temos também a possibilidade de um uso maior da sala, para eventos corporativos ou coisas do tipo quando ela não estiver sendo usada por nós.
O ex-governador Romeu Zema, durante sua primeira campanha ao governo do estado, chegou a afirmar que a Sala Minas Gerais seria uma “monstruosidade da elite”. Qual a relação da Filarmônica com o governo estadual atualmente?
A melhor possível. Uma das primeiras coisas que eu fiz, logo que cheguei, foi visitar todas as secretarias. Se existir algum preconceito, algum ranço, vamos acabar com isso. Eu sou defensor do diálogo. Sou defensor de mostrar o que está certo e o que está errado. Vamos corrigir o que precisa ser corrigido e melhorar o que está bom. Eu tenho dito, inclusive, que o governo tem de usar mais esse patrimônio, que deve ser orgulho de todos nós mineiros, até na linha do seu desenvolvimento econômico social. Vou dar um exemplo prático. Eu procurei a área de desenvolvimento econômico e disse: “Se na época em que eu passei pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico existisse esta sala, eu certamente estaria vendendo como um grande patrimônio de Minas”. Em que sentido? Estaria mostrando aos investidores o que nós temos em Minas Gerais. Tem de levá-los ao Mercado Central? Claro. À Praça da Liberdade, a Inhotim, às cidades históricas? Sim. A cultura também precisa ser uma forma de atração de investimento, atração de mais negócios para Minas Gerais.
Precisamos parar com essa ideia de que Minas trabalha em silêncio. Nós precisamos mostrar o que temos de bom e temos muita coisa boa para ser mostrada.
Em 2024, o governo do estado tentou passar o controle da Sala Minas Gerais para a Fiemg. A alteração não foi para frente muito por causa dos protestos que se seguiram. Alguma mudança nesse sentido ainda é possível?
Eu acompanhei esse assunto de longe. Certamente, a Fiemg será sempre bem-vinda sob a forma de parcerias. Mas esse assunto já está encerrado, tanto no governo quanto na própria federação.
Há poucas semanas, nós tivemos aqui na Sala Minas Gerais um concerto da Filarmônica com a cantora Mônica Salmaso, com três concertos com ingressos esgotados. O senhor considera que essa união entre o clássico e o popular pode ser uma fórmula de a Filarmônica atingir um público cada vez maior?
Temos de acabar com essa ideia de que a Filarmônica é coisa de elite. Não é verdade. E essa foi uma demonstração disso. Se fossemos uma empresa - e a gente tem de gerir como se uma empresa fosse, guardadas as devidas proporções - teríamos que diversificar nossa atuação. E temos vários produtos, vamos chamar assim. O concerto que é realizado numa quinta, numa sexta-feira, não é o mesmo concerto que a gente faz na próxima quinta ou sexta-feira. Temos os concertos para a juventude; concertos ao ar livre, como o que realizamos no Dia das Mães em Betim; didáticos, que são aqueles programas em que os monitores vão nas escolas para introduzir as crianças à música clássica e depois elas vêm aqui.
Há projetos para revitalizar o entorno da Sala Minas Gerais?
Um dos nossos objetivos é melhorar o ambiente em que estamos. Estamos em uma praça que é muito frequentada aos fins de semana. Um dos grandes pontos que ouvimos dos frequentadores é que os concertos acabam por volta de 22h30 e não tem mais restaurantes abertos em Belo Horizonte. Recentemente, a Codemig, que é dona também desta sala, firmou uma parceria com a Ânima Educação para fazer na Mineiraria, aqui do lado, uma escola de gastronomia. Para nós, nada melhor do que isso. Nós temos aqui o cliente ávido por um restaurante e eles abrem uma escola de gastronomia?
É juntar a fome com a vontade de comer, neste caso, literalmente?
É. Você imagina o público saindo daqui numa quinta ou sexta-feira e ter um lugar para tomar um vinho, jantar? Com a Mineiraria, vai dar. A nossa praça também está sob a gestão do instituto e até hoje não foi utilizada adequadamente. Mas estamos encaminhando para uma novidade em junho, julho, no máximo.