
Jean Santos Otoni, professor de produção de textos do ensino médio, analista da área institucional de Produção de Textos da Rede Lius Agostinianos e doutor em Linguística e Língua Portuguesa, enfatiza que o famoso “repertório de bolso” compromete profundamente a qualidade e a autoria do texto. “Além disso, essa prática empobrece a argumentação e anula a marca pessoal do candidato, pois substitui o raciocínio crítico autêntico por uma estrutura rígida baseada puramente na memorização”, afirma.

Em 2026, a quinta edição da Maratona Agostiniana de Redação reuniu 1.286 estudantes, do 6º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio, nas unidades do Colégio Santo Agostinho e da Escola Profissionalizante Santo Agostinho, no Barreiro. Nas 2ª e 3ª séries, os textos seguem o formato do Enem, sendo corrigidos, devolvidos e reescritos antes de uma roda de debate. Na unidade Contagem, a média nessa competência chegou a 191 pontos de 200. Os alunos da 3ª série também participam da elaboração de uma cartilha de repertórios estratégicos, organizada em oito eixos temáticos, com referências de filmes, músicas e livros.
Formação integral

“O trabalho da equipe de redação é estruturado a partir da análise e da escrita de diferentes gêneros textuais (notícia, resenha, carta aberta, artigo de opinião etc.) do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. No ensino médio, prioriza-se o estudo do texto dissertativo-argumentativo (modelo Enem), com a revisão dos gêneros vistos anteriormente”, afirma a profissional.
A equipe do Batista utiliza estratégias para a construção de repertórios socioculturais. Uma delas é relacionar diferentes disciplinas ao tema do texto. Outra maneira, conta Andréa, é contemplar eixos temáticos do Enem — entre eles, meio ambiente e sustentabilidade, educação e cidadania, e tecnologia e sociedade. “Dessa forma, propicia-se a reflexão coletiva, com a elaboração de raciocínios dedutivos ou indutivos, o que é crucial para a construção de argumentos consistentes e articulados”, acredita, acrescentando que isso estimula o pensamento crítico e inibe o uso de modelos prontos.
Sobre a evolução da escrita do estudante, Andréa destaca a Plataforma Redigir, com gráficos, relatórios, videoaulas e exercícios para cada desvio apontado no texto corrigido. “Essa prática constante de reflexão minimiza o uso de modelos prontos, tornando-os desnecessários.” Na prática, revela Andréa, o trabalho da Rede Batista de Educação obtém resultados concretos: “Um a cada três estudantes do Batista tira nota 900 ou mais na redação do Enem, e a maior nota da última edição, 980 pontos, foi alcançada por cinco estudantes em diferentes unidades do Colégio”.
Autoria exige escuta

A psicopedagoga defende que esse processo começa na família e na escola, desde a primeira infância. O papel da educação, ressalta, é criar condições para que crianças e adolescentes conheçam, questionem e transformem essa herança. Para Jane, formar um sujeito autoral não é ensiná-lo a romper com tudo aquilo que veio antes. “É oferecer condições para que ele conheça o que recebeu, incorpore e questione essa herança simbólica e, a partir dela, possa acrescentar algo de si ao mundo”, diz.
A literatura ocupa um lugar importante nesse percurso. Jane lembra que uma história escrita pode nos emprestar palavras para nomear aquilo que, até então, não conseguíamos dizer. Para ela, escrever pressupõe reescrever, experimentar e lidar com o erro. “Autoria não é perfeição. É encontrar uma maneira própria de dizer. Ninguém se torna leitor e autor apenas aprendendo técnicas de redação”, determina.
A estrutura da redação, ressalta Jane, pode e deve ser ensinada. O estudante precisa compreender tese, argumentos, coesão, conclusão e proposta de intervenção. “O problema não está na estrutura; está quando ela passa a ocupar o lugar do estudante frente ao seu saber.” Ela afirma que não basta mencionar a Constituição Federal, Bauman, Foucault, Freud ou qualquer outro autor. É preciso compreender a referência, estabelecer relações com o tema e, a partir dela, construir e sustentar um argumento coerente: “Repertório autoral não é uma coleção de citações prontas”.
A profissional também chama a atenção para os efeitos das respostas instantâneas oferecidas pelas tecnologias digitais. Ela propõe dar um passo atrás, o que significa dedicar tempo aos filhos, contar histórias, ler junto, provocar perguntas e deixar dúvidas em aberto. “Talvez seja uma das formas mais potentes de formar sujeitos capazes de pensar. Mais do que redações nota mil, estamos precisando de vozes próprias, que pensem antes de apertar botões.”
Escolas conteudistas

Para ela, como as escolas brasileiras são, em grande parte, conteudistas, saber empregar o conhecimento adquirido pode resultar em uma redação criativa e com argumentos consistentes. “Quem tem segurança, sabe se expressar e tem informação não precisa ter medo da escrita”, diz. Ela alerta que é preciso estudar redação. Como? “Com leitura, curiosidade e vontade de construir uma comunicação em que haja interação entre os saberes construídos.” E reforça que é imprescindível não ter preguiça e dedicar um pouco de esforço: “É uma tarefa maravilhosa, porém nem sempre fácil”.
A criatividade é parte do processo de escrita. Regina afirma que ela nasce do conhecimento, da vontade de ir além e do contato com a arte em geral. “'A informação não é dom; é trabalho. Ninguém dá o que não tem'”, diz, citando o cartunista Henfil. Para a professora, é fundamental planejar as ideias, escrevê-las com calma, ler, revisar e treinar por meio de simulados. “É preciso ter nítido que falar é completamente diferente de escrever. A escrita é descontextualizada e precisa de ideias concisas, claras, coerentes e corretas gramaticalmente.”