
Nos últimos anos, essas lembranças deixaram de pertencer exclusivamente às cozinhas domésticas e passaram a ocupar um lugar de destaque nos restaurantes. Chefs transformam receitas familiares em pratos nos cardápios. Não se trata, no entanto, de apenas resgatar uma preparação antiga. É uma maneira de contar sua própria história por meio da comida. O chef Yves Saliba, que morou no interior, em Campo Belo, até os 11 anos, aprendeu com a mãe, Maria Aparecida, o poder de um refogado. “Como não tenho uma formação na área, a minha base de cozinha vem de casa. Minha mãe cozinha bizarramente bem, o que me faz querer ser igual”, diz. A principal lição está na base dos sabores, na escolha dos temperos. Ele lembra com carinho de acender o fogão à lenha, que além de reinar absoluto na cozinha, também aquecia a serpentina por onde passava a água usada no banho. Atualmente, muitas coisas que comeu sentado à mesa caseira, ele serve para os clientes. “As pessoas acham que ao servir um menu degustação, o chef se afasta da base. Muito pelo contrário, quanto mais simples é a técnica e mais singelos são os preparos, maior a chance de entregar uma comida maravilhosa, com potência de sabor. O simples bem-feito não comete falhas”, explica. No menu atual do Per Lui, Yves serve uma galinhada feita exatamente da forma que a mãe lhe ensinou. Em uma panela de fundo grosso, primeiro entra o açúcar para caramelizar os pedaços de frango, depois vêm o alho, cebola, urucum...
É justamente aí que a chamada memória afetiva se torna ingrediente. Mas não pense que é simples profissionalizar algo que está mais nas lembranças do que nas anotações. A preparação doméstica, com seus punhados e pitadas, precisa ser reproduzida com técnica. É essa tensão, em profissionalizar sem perder a essência, que torna esses preparos tão interessantes. O chef pode até modernizar a apresentação, substituir um insumo ou adaptar uma ferramenta, mas precisa preservar a alma do prato.

O gosto do gosto

No caso de Naiara Faria, do La Palma, o risoto feito pelo pai durante as férias tem gosto de casa. O prato de arroz italiano sempre foi um dos carros-chefes do Vecchio Sogno, um dos principais restaurantes de BH por 25 anos e que encerrou as atividades em 2021. Hoje, Naiara refaz a receita paterna nos mínimos detalhes. “Aqui, a gente puxa exatamente como fazia no Vecchio. Cebola, arroz, depois o vinho branco, caldo de legumes para deixar o arroz mais clarinho. De acordo com o que vai marchando, finalizamos com manteiga e parmesão para ficar bem cremoso”, diz a chef.

Aprendemos a cozinhar com a memória dos outros. “A comida servida na minha casa é o meu negócio”, afirma Aline Soares, do Judite, Comida de vó. “Fui criada na beira do fogão da minha avó, auxiliando e aprendendo todos os truques. Desde ir a horta para buscar um cheiro-verde, couve ou taioba, até preparar as quitandas dos finais de semana e as ceias de Natal”, completa. No seu restaurante, vários pratos saem desse lugar: o frango com quiabo, a carne moída com chuchu e angu, a galinha e a feijoada. Mas o prato que ela mais gosta é do tutu, que vem com a sobrecoxa assada, molho de cebola e ova, maionese e arroz. “O feijão batido é engrossado com farinha de fubá torrado e uso a cachaça na finalização”, diz.

De volta ao lar
O movimento de levar essas receitas aos restaurantes revela também uma transformação na própria gastronomia contemporânea. Durante décadas, a alta cozinha buscou afastar-se do cotidiano, valorizando técnicas sofisticadas, ingredientes raros e apresentações elaboradas. Hoje, alguns chefs fazem o caminho inverso, investindo no íntimo e simples.


Uma receita de família quando chega a um restaurante passa a cumprir duas funções: preservar a memória de quem a criou e, ao mesmo tempo, criar novas memórias para quem a prova pela primeira vez.