Estado de Minas CULTURA

Das finanças às artes, Ivan Leite estreia primeira exposição em BH

Aos 59 anos, artista mineiro transforma a relação entre razão e sensibilidade em pinturas que ganham mostra na Savassi


postado em 07/10/2026 08:21 / atualizado em 07/10/2026 08:46

O artista Ivan Leite:
O artista Ivan Leite: "Depois de me aposentar, senti que era hora de abrir espaço para uma outra parte de mim que sempre esteve presente. Foi então que decidi me dedicar às artes plásticas" (foto: Pádua de Carvalho)
Há quem imagine uma linha divisória entre o pensamento racional e a criação artística. Para Ivan Leite, essa fronteira nunca existiu. Com formação na área financeira, onde atuou por anos, ele sempre transitou pelo território da precisão e a lógica incontornável das ciências exatas paralelamente à linguagem da arte. Assim, ele encontrou maneiras diferentes, e talvez complementares, de olhar para o mundo. Inquietações que nascem da busca por padrões, equilíbrio e novas possibilidades de interpretação da realidade. Aos 59 anos, mineiro de Belo Horizonte, casado com Rose Mary Rodrigues e pai do Rafael, de 26 anos, Ivan reconhece que a experiência de anos trabalhando em uma grande empresa lhe trouxe disciplina, organização e uma maneira racional de enxergar as coisas. “Depois de me aposentar, senti que era hora de abrir espaço para uma outra parte de mim que sempre esteve presente. Foi então que decidi me dedicar às artes plásticas”, diz.
 
Assim, a pintura passou a ocupar um lugar cada vez mais importante na vida de Ivan. “Hoje, procuro transformar aquilo que observo, sinto e reflito em cores, formas e imagens. Talvez essa passagem das exatas para a arte diga muito sobre quem sou: alguém que passou grande parte da vida lidando com a razão e que encontrou, na maturidade, a liberdade de também se deixar conduzir pela sensibilidade”, afirma. Sua nova carreira dá mais um passo entre 7 de outubro a 7 de novembro, quando ele faz sua primeira exposição, na galeria da Maison da Arte, na Savassi. 
 
 (foto: Pádua de Carvalho)
(foto: Pádua de Carvalho)
Ao pensar no passado, Ivan acredita que seu gosto pela arte estava guardado desde a infância e a adolescência. O despertar, ele lembra, chegou com o estudo da língua espanhola. “Ao entrar em contato com a cultura espanhola, comecei a me encantar pelos grandes pintores da Espanha e fui descobrindo a arte francesa e, depois, a italiana. Quanto mais conhecia, mais queria conhecer. Até que, certo dia, encontrei a Maison, uma escola que oferecia um curso de História da Arte ministrado pela grande artista mineira Yara Tupynambá”, afirma ele. Segundo Ivan, foi a partir daí que a arte deixou de ser apenas admiração e passou a fazer parte de sua vida de maneira profunda. Desde o primeiro curso, ele passou a conviver com artistas, curadores e outros estudantes de arte. Começou pelo desenho, aos poucos, foi se aventurando por diferentes técnicas: pastel seco, aquarela, carvão e, posteriormente, a pintura com tinta acrílica. “Hoje, me vejo como um artista que busca, antes de tudo, liberdade. Pintar me ensina a lidar com o tempo. Existe um diálogo entre mim e a tela.”
Ele enfatiza que não quer ficar preso a uma única técnica ou fórmula: “Tenho experimentado desenho, pastel seco, aquarela, carvão e, principalmente, a pintura com tinta acrílica. Cada técnica me oferece uma maneira diferente de dizer alguma coisa”.
 
Para Ivan, a arte tem o poder de transformar o olhar das pessoas. Ele afirma que, quando começou a estudar História da Arte, imaginava que o Renascimento seria o período que mais o encantaria, mas depois ficou fascinado pelo Barroco e o uso da luz e a sombra. Em seguida, se encantou pelo Impressionismo e pelo Pós-Impressionismo. “Percebi que cada período, escola e artista tinha uma maneira própria de olhar e interpretar o mundo”, conta. Os artistas que mais o marcaram foram Rafael de Sanzio, Caravaggio, Renoir, Van Gogh e Picasso. Dos mineiros, ele admira Yara Tupynambá, Glauco Moraes, Mario Mariano e Carlos Bracher e “aqueles que iniciaram suas carreiras na Escola Guignard”. 
 
 (foto: Pádua de Carvalho)
(foto: Pádua de Carvalho)
Ivan batizou sua arte com o nome “Leite da Alma”, uma brincadeira com seu sobrenome e com o primeiro alimento do ser humano, como ele gosta de falar. “Se o alimento nutre o corpo, a arte pode ser um alimento para a alma. Todos nós temos arte dentro da alma. O que muitas vezes nos falta é tempo e silêncio para escutá-la.” Nessa perspectiva, Ivan revela que adotou um pequeno ritual com suas obras. Quando termina uma pintura, ele escreve no verso uma frase que vai ajudar quem estiver diante daquela obra a escutá-la: “Porque acredito que toda obra quer falar. Essa acabou se tornando uma marca do meu trabalho. Minha obra tem uma imagem na frente e uma voz no verso. A imagem é aquilo que o olhar encontra primeiro. A voz é aquilo que convido o observador a descobrir depois. E talvez essa seja, para mim, a alma de um artista: alguém que consegue fazer silêncio suficiente para ouvir o que existe dentro de si e transformar essa escuta em alguma forma de arte”.



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